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quinta-feira, 29 de julho de 2010

A ideologia pára-conciliar e suas conseqüências na Igreja.

Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei”, proferiu recentemente uma conferencia à Fraternidade de São Pedro sobre os “aspectos da eclesiologia católica no acolhimento do Concílio Vaticano II”. Apresentamos a parte conclusiva da referida conferência, particularmente interessante, uma vez que Mons. Pozzo se refere a um assunto de grande atualidade na vida da Igreja: o da interpretação do Concílio Vaticano II em continuidade com a Tradição doutrinal católica (um tema que está incluído entre aqueles que a Fraternidade São Pio X tratará com a Santa Sé nas atuais conversações doutrinais). Com grande clareza e lucidez, Mons. Pozzo denuncia a existência e as conseqüências do que chama “ideologia pára-conciliar”.

* * *


O que está na origem da interpretação da continuidade ou ruptura com a Tradição?

Está o que podemos chamar a ideologia conciliar ou, mais exatamente, pára-conciliar, que se apoderou do Concílio desde o princípio, sobrepondo-se sobre ele. Com esta expressão não se entende algo que diz respeito aos textos do Concílio, nem muito menos à interpretação dos sujeitos, mas sim o marco de interpretação global em que o Concílio foi colocado e que atuou como uma espécie de condicionamento interior na leitura sucessiva dos feitos e dos documentos. O Concílio não é, de fato, a ideologia pára-conciliar, mas na história dos acontecimentos da Igreja e dos meios de comunicação de massa logrou-se em grande medida a mistificação do Concílio, quer dizer, a ideologia pára-conciliar. Para que todas as conseqüências da ideologia pára-conciliar fossem manifestadas como evento histórico, foi necessário verificar a revolução do ano 1968, que assume como princípio a ruptura com o passado e a mudança radical da história. Na ideologia pára-conciliar, o ano de 1968 significa uma nova figura de Igreja em ruptura com o passado, embora as raízes desta ruptura estivessem presentes já desde algum tempo em determinados ambientes católicos.

Este marco de interpretação global, que se sobrepôs de modo extrínseco ao Concílio, pode ser caracterizado principalmente por esses três fatores:

1) O primeiro fator é a renúncia ao anátema, quer dizer, a contraposição entre ortodoxia e heresia.

Em nome da assim chamada ‘pastoralidade’ do Concílio, faz-se passar a idéia de que a Igreja renuncia à condenação do erro, à definição da ortodoxia em contraposição à heresia. Se contrapõe à condenação dos erros e ao anátema pronunciado pela Igreja no passado, sobretudo, aquele que é incompatível com a verdade cristã ao caráter pastoral do ensinamento do Concílio, que já não queria mais condenar ou censurar, mas sim exortar, ilustrar ou testemunhar.

Na realidade, não há contradição alguma entre a firme condenação e a refutação dos erros em matéria doutrinal e moral e a atitude de amor para quem cai no erro e de respeito à sua dignidade pessoal. Todavia, precisamente porque o cristão tem um grande respeito pela pessoa humana, empenha-se além de todo limite para libertá-la do erro e das falsas interpretações da realidade religiosa e moral.

A adesão à pessoa de Jesus Filho de Deus, a sua Palavra e a seu mistério de salvação, exige uma resposta de fé simples e clara, como a que se encontra nos símbolos da fé e na regra fidei. A proclamação da verdade da fé implica sempre também a refutação do erro e a censura das posições ambíguas e perigosas que difundem incerteza e confusão nos fiéis.

Portanto, seria errôneo e infundado considerar que, depois do Concílio Vaticano II, o pronunciamento dogmático e censurador do Magistério teve que ser abandonado ou excluído, assim como seria também equivocado considerar que a índole expositiva e pastoral dos Documentos do Concílio Vaticano II não implica também uma doutrina que exige o nível de assentimento por parte dos fiéis segundo o grau diverso de autoridade das doutrinas propostas.

2) O segundo fator é a tradução do pensamento católico às categorias da modernidade. A abertura da Igreja às instâncias e às exigências da modernidade (ver Gaudium et Spes) é interpretada pela ideologia pára-conciliar como necessidade de uma conciliação entre Cristianismo e o pensamento filosófico e ideológico cultural moderno. Trata-se de uma operação teológica e intelectual que volta a propor na substância a idéia do modernismo, condenado no início do século XX por São Pio X.

A teologia neomodernista e secularista tem buscado o encontro com o mundo moderno precisamente às vésperas da dissolução do “moderno”. Com a queda do assim chamado “socialismo real” em 1989, caíram aqueles mitos da modernidade e da irreversibilidade de emancipação da história que representavam os postulados do sociologismo e do secularismo. O paradigma da modernidade, de fato, foi sucedido hoje em dia pelo paradigma da pós-modernidade do “caos” ou da “complexidade pluralista”, cujo fundamento é o relativismo radical. Na homilia do então Cardeal Joseph Ratzinger, antes de ser eleito Papa, por ocasião da celebração litúrgica “Pro eligendo Pontifice” (18/4/2005), encontra-se em destaque o centro da questão: “Quantos ventos de doutrina temos conhecido durante estas últimas décadas, quantas correntes ideológicas!, quantas modas de pensamento!… A pequena barca de pensamento de muitos cristãos foi sacudida com freqüência por essas ondas, levada de um extremo a outro: Do marxismo ao liberalismo, até a libertinagem, do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, etc. Cada dia nascem novas seitas e se realiza o que diz São Pedro sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). A quem tem uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, freqüentemente se aplica a etiqueta de fundamentalismo. Ao passo que o relativismo, quer dizer, deixar-se “levar à deriva por qualquer vento de doutrina”, parece ser a única atitude adequada nos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida só o próprio eu e seus antolhos”.

Frente a este processo é necessário, antes demais nada, recuperar o sentido metafísico da realidade (cf. Encíclica Fides et ratio do Papa João Paulo II) e uma visão de homem e da sociedade fundada sobre valores absolutos, meta-históricos e permanentes. Esta visão metafísica não pode prescindir de uma reflexão sobre o papel na história da Graça, quer dizer, do sobrenatural, da qual a Igreja, Corpo Místico de Cristo, é depositária. A reconquista do sentido metafísico com o lumen rationis deve ser paralela ao sentido sobrenatural com o lumun fidei.

Pelo contrário, a ideologia pára-conciliar considera que a mensagem cristã deve ser secularizada e reinterpretada segundo as categorias da cultura moderna extra e anti-eclesial, comprometendo sua integridade, talvez com o pretexto de uma “oportuna adaptação” aos tempos. O resultado é a secularização da religião e a mundanização da fé.

Um dos instrumentos para mundanizar a religião constitui-se pela pretensão de modernizá-la, adequando-a ao espírito moderno. Esta pretensão tem levado o mundo católico a comprometer-se em um “aggiornamento”, que constituía em realidade em uma progressiva e às vezes inconsciente homologação da mentalidade eclesial com o subjetivismo e o relativismo imperantes. Isto levou a uma desorientação nos fiéis, privando-os da certeza da fé e da esperança na vida eterna, como fim prioritário da existência humana.

3) O terceiro fator é a interpretação do “aggiornamento” querido pelo Concílio Vaticano II.

Com a expressão “aggiornamento”, o Papa João XXIII quis indicar a tarefa prioritária do Concílio Vaticano II. No pensamento do Papa e do Concílio este termo não expressava, sem dúvida, o que por sua vez ocorreu em seu nome na recepção ideológica do pós-Concílio. “Aggiornamento”, no significado papal e conciliar, queria expressar a intenção pastoral da Igreja de encontrar os modos mais adequados e oportunos para conduzir a consciência civil do mundo atual a reconhecer a verdade perene da mensagem salvífica de Cristo e da doutrina da Igreja. Amor pela verdade e zelo missionário pela salvação dos homens estão na base dos princípios da ação de “aggiornamento” querida e pensada pelo Concílio Vaticano II e pelo Magistério pontifício sucessivo.

Por outro lado, desde a ideologia pára-conciliar, difundida, sobretudo, pelos grupos intelectualistas católicos neomodernistas e pelos centros mediáticos do poder mundano secularista, a expressão “aggiornamento” é entendida e proposta como a derrocada da Igreja frente ao mundo moderno: do antagonismo à receptividade. A Modernidade ideológica – que certamente não deve ser confundida com a legítima e positiva autonomia da ciência, da política, das artes, do progresso técnico – fixou como princípio o rechaço ao Deus da Revelação cristã e da Graça. Portanto, ela não é neutra em face à fé. O que fez pensar em uma conciliação da Igreja com o mundo moderno levou assim, paradoxalmente, ao esquecimento de que o espírito anticristão do mundo continua atuando na história e na cultura. A situação pós-conciliar foi descrita deste modo já por Paulo VI em 1972:

“A fumaça de Satanás entrou por alguma fissura no templo de Deus: E assim entraram a dúvida, a incerteza, a problemática e a inquietude. A dúvida entrou em nossas consciências e entrou por janelas que deveriam estar abertas à luz. Também dentro da Igreja reina este estado de incerteza. Pensava-se que depois do Concílio viriam dias de Sol para a história da Igreja. Em troca, veio um dia de nuvens, tempestade, escuridão, busca e incerteza. Como isso ocorreu? Confiamos-lhes nosso pensamento: Houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é diabo, este misterioso ser a que se faz alusão também na carta de São Pedro” (Paulo VI, homilia na Missa por ocasião do IX aniversário da coroação de Sua Santidade na solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de junho de 1972).

Por desgraça, os efeitos assinalados por Paulo VI não desapareceram. Um pensamento estranho entrou no mundo católico, semeando confusão, seduzindo a muitas almas e desorientando os fiéis. Há um “espírito de autodemolição” que infiltra o modernismo, que se apoderou entre outras coisas, de grande parte do periodismo católico. Este pensamento alheio à doutrina católica pode ser constatado, por exemplo, sob dois aspectos.

Um primeiro aspecto é uma visão sociológica da fé, quer dizer, uma interpretação que assume o social como chave de valoração da religião e que comportou uma falsificação do conceito de Igreja segundo um modelo democrático. Se observarmos as discussões atuais sobre a disciplina, sobre o direito, sobre o modo de celebrar a liturgia, não se pode evitar perceber que esta falsa compreensão da Igreja se difundiu entre os leigos e teólogos segundo o slogan: Nós somos o povo, nós somos Igreja (Kirche von unten). O Concílio, na realidade, não oferece nenhum fundamento a esta interpretação, uma vez que a imagem do povo de Deus referida à Igreja está sempre ligada à concepção da Igreja como Mistério, como comunidade sacramental do corpo de Cristo, composto por um povo que tem uma cabeça e por um organismo sacramental composto por membros hierarquicamente ordenados. A Igreja, portanto, não pode converter-se em uma democracia, na qual o poder e a soberania derivam do povo, já que a Igreja é uma realidade que provém de Deus e foi fundada por Jesus Cristo. Ela é intermediária da vida divina, da salvação e da verdade, e depende da soberania de Deus, que é uma soberania de graça e de amor. A Igreja é, ao mesmo tempo, dom de graça e estrutura institucional porque assim o quis o seu Fundador: chamando aos Apóstolos, “Jesus instituiu doze” (Mc. 3, 13).

Um segundo aspecto, sobre o qual peço a vossa atenção, é a ideologia do diálogo. Segundo o Concílio e a Carta Encíclica de Paulo VI Ecclesiam suam, o diálogo é um importante e irrenunciável meio para o colóquio da Igreja com os homens do próprio tempo. Porém, a ideologia pára-conciliar transforma o diálogo de instrumento em objetivo e fim primário da ação pastoral da Igreja, esvaziando cada vez mais de sentido e obscurecendo a urgência e o chamado à conversão a Cristo e à pertença a Sua Igreja

Contra tais desvios, é necessário reencontrar e recuperar o fundamento espiritual e cultural da civilização católica, quer dizer, a fé em Deus, transcendente e criador, providente e juiz, cujo Filho Unigênito se encarnou, morreu e ressuscitou para a redenção do mundo e infundiu a graça do Espírito Santo para a remissão dos pecados e para fazer aos homens partícipes da natureza divina. A Igreja, Corpo de Cristo, instituição divino-humana, é o sacramento universal da salvação e da unidade dos homens, da qual é sinal e instrumento, no sentido de unir aos homens a Cristo mediante seu Corpo, que é a Igreja.

A unidade de todo o gênero humano, da qual fala LG 1, não deve ser entendida, portanto, no sentido de alcançar a concórdia ou a reunificação das diversas idéias ou religiões ou valores em um “reino comum e convergente”, mas que se obtém reconduzindo a todos à única Verdade, da qual a Igreja Católica é depositária porque Deus mesmo a confiou. Nenhuma harmonização das doutrinas “estranhas”, mas um anúncio integral do patrimônio da verdade cristã, no respeito da liberdade de consciência, e valorizando os raios de verdade esparsos no universo das tradições culturais e das religiões do mundo, opondo-se ao mesmo tempo às visões que não coincidem e não são compatíveis com a Verdade, que é Deus revelado em Cristo.

Concluo voltando às categorias interpretativas sugeridas pelo Papa Bento no Discurso à Cúria Romana, mencionado no início. Estas não fazem referência ao esquema ternário habitual e obsoleto (conservadores, progressistas, moderados), mas se apóiam sobre um binário estranhamente teológico: duas hermenêuticas, a da ruptura e a da reforma na continuidade. É necessário seguir esta última direção ao afrontar os pontos controversos, liberando, por assim dizer, o Concílio do pára-Concílio que se mesclou a ele, e conservando o principio da integridade da doutrina católica e da plena fidelidade ao depósito da fé transmitido pela Tradição e interpretado pelo Magistério da Igreja.

Visto em: Fratres in Unum

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O juízo de Monsenhor Brunero Gherardini sobre o debate teológico entre Tradição e o Concílio Vaticano II.

Mons. Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e  postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a  aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da  consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.



DICI
– Na edição de maio de 2010 de Courrier de Rome (n°333), Professor Paolo Pasqualucci oferece um comentário esclarecedor sobre o estudo de Monsenhor Brunero Gherardini publicado na revista teológica Divinitas sob o título Quod et tradidi vobis – La tradizione vita e giovinezza della Chiesa (Quod et tradidi vobis. A tradição, vida e juventude da Igreja), um estudo que também foi republicado em um volume por Casa Mariana Editrice.

Monsenhor Gherardini, autor de Vaticano II: Un discorso da fare, publicado em francês no início desse ano, apresenta em Quod et tradidi vobis uma análise muito pertinente do debate teológico entre a Tradição e o Concílio Vaticano II. Aqui está o amplo extrato que pode ser encontrado em Courrier de Rome, oferecendo uma lista de 9 dificuldades; a esta lista nós acrescentamos os três parágrafos que seguem, onde Monsenhor Gherardini não hesita em transmitir um julgamento pessoalmente muito explícito.

“Em meu esforço em estabelecer uma síntese de posições defendidas por Dom Lefebvre em favor da Tradição, e sem pretender tratar exaustivamente do assunto, parece-me que o conflito se estabelece da seguinte maneira:

  1. Uma formação sacerdotal que encontrou seus princípios na Tradição eclesiástica e nos valores sobrenaturais da Revelação divina, frente a uma formação sacerdotal aberta ao horizonte flutuante de uma cultura em perpétuo estado de devir.

  2. Uma liturgia que certamente tem um ponto forte na Missa dita tradicional, frente a uma liturgia antropocêntrica e sociológica [a do Novus Ordo da missa], na qual o coletivo prevalece sobre o valor do individual, a oração ignora o aspecto latrêutico, a assembléia torna-se o ator principal e Deus dá lugar ao homem.
  3. Uma liberdade que faz sua “libertação” depender do Decálogo, dos mandamentos da Igreja, das obrigações do dever de estado e do dever de conhecer, amar e servir a Deus, frente a uma liberdade que coloca todas as formas de culto em pé de igualdade, silencia a respeito da lei de Deus, desobriga os indivíduos e a sociedade sobre domínios éticos e religiosos e deixa a solução de todos os problemas exclusivamente à consciência.
  4. Uma teologia que reúne seu conteúodo de fontes específicas (Revelação, Magistério, Patrística, Liturgia), frente a uma teologia que abre bem os seus braços, dia após dia, às emergências culturais do momento, mesmo àquelas que claramente contradizem as fontes recém mencionadas.
  5. Uma soteriologia (nota do editor: estudo da obra da salvação) estreitamente unida à pessoa e à obra redentora do Verbo Encarnado, à ação do Espírito Santo, intimamente ligada à aplicação dos méritos do Redentor, à intervenção sacramental da Igreja e à cooperação dos fiéis batizados, frente a uma soteriologia que considera a unidade do gênero humano como consequência da encarnação do Verbo, em quem (cf GS 22) cada homem encontra sua própria identificação.
  6. Uma eclesiologia que identifica a Igreja com o Corpo Místico de Cristo e reconhece em Sua presença sacramental o segredo vital do ser e do agir eclesial, frente a uma eclesiologia que considera a Igreja Católica como um componente, entre outros, da Igreja de Cristo, e que, nessa fantasmagórica Igreja de Cristo, adormece o espírito missionário, dialoga mas não evangeliza, e acima de tudo, renuncia o proselitismo como se fosse um pecado mortal.
  7. Um Sacrifício expiatório da Missa, que celebra os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, representando sacramentalmente a redenção satisfatória, frente a uma Missa na qual o padre é apenas um presidente e todos tomam uma parte “ativa” no sacramento, graças ao fato de que a fé não é encontrada em Deus que Se revela, mas numa resposta existencial feita a Deus que nos interpela.
  8. Um Magistério consciente de ter o múnus de guardar o sagrado depósito da Revelação divina com o dever de interpretá-lo e transmiti-lo às gerações futuras, frente a um Magistério Papal que, longe de se sentir a voz da Igreja docente, sujeita a própria Igreja ao colégio dos bispos, dotado dos mesmos direitos e deveres do Romano Pontífice.
  9. Uma religiosidade que compreende a vocação comum ao serviço de Deus e, por amor a Ele, o serviço aos irmãos na humanidade, frente a uma religiosidade que inverte essa ordem natural, faz do homem seu centro e, se não em teoria, ao menos na prática, coloca-o em lugar de Deus.

“Do que acaba de ser dito, pode-se facilmente deduzir como a Fraternidade São Pio X compreende a Tradição. Realmente, a Tradição é exatamente o que a Fraternidade não nega ou se opõe. Diretamente ou nas entrelinhas, a Fraternidade rejeita as inogações dos documentos do Concílio e suas aplicações pós-conciliares, e permanece em oposição ao uso selvagem que tão casualmente foi feito deles.

“É verdade que nos escritos da Fraternidade São Pio X o conceito de Tradição não freqüentemente é explicado, e nós não o encontramos desenvolvido sistematicamente. Mas o que se compreende, assim como o que se conjetura, nunca permanece em sombras. Como fundamento de tudo está “a fé de sempre” para cuja salvaguarda nasceu a Fraternidade”. “Salvaguarda” indica uma oposição a algo presente ou possível, em favor de seu contrário ou de sua substituição. A “fé de sempre” é o valor que Monsenhor Lefebvre quis salvaguardar, um valor que está sendo substituído por todas as atenuações, reinterpretações, reduções e negações do período conciliar e pós-conciliar. A “fé de sempre” é o eco alto e claro do ensinamento agostiniano resumido pelas palavras de São Vicente de Lérins: “Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est”[1]. A própria ereção da Fraternidade, com seu objetivo primeiro que é a formação sacerdotal, obedece a este grande ideal e ao comprometimento de salvaguardá-lo. Salvaguardar a fé e combater o erro.

“Não entrarei em detalhes sobre as relações e dificuldades entre a Santa Sé a Fraternidade São Pio X. Atenho-me ao tema comum da Tradição e observo que “salvaguardar a fé e combater o erro” deveria ser o ideal e o comprometimento tanto da Igreja como de seus filhos. À essa luz, é difícil, para mim, compreender como a acusação de uma “incompleta e contraditória Tradição” formulada por João Paulo II em 1988 [2] poderia ter alguma base verdadeira. O que compreendo é que ela não tem nada a ver com o “espírito de Assis”. [3] (Traduzido do Italiano — DICI n°218, July 10, 2010)

Courrier de Rome – B.P. 10156 – 78001 Versailles Cedex or courrierderome@wanadoo.fr – Assinatura: 20 euros (Exterior: 24 euros)

Msgr. Brunero Gherardini, Ecumenical Council Vatican II: And Open Discussion – disponível em Courrier de Rome: 15 euros + 3 euros frete


[1] St. Vincent de Lérins, Commonitorium, c. 23.

[2] Motu Proprio Ecclesia Dei, July 2, 1988.

[3] Msgr. Gherardini, Quod et tradidi vobisLa tradizione vita e giovinezza della Chiesa, Ed. Casa Mariana Editrice, pp. 241-244.

Visto em: Fratres in Unum

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Editorial: A aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum no Brasil, um fiasco.

Com raríssimas exceções, a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum no Brasil pode ser considerada um absoluto fiasco.

Embora o número de celebrações tenha aumentado desde a publicação do documento, as circunstâncias que envolvem as mesmas continuam sempre amordaçantes e nada favoráveis aos que amam verdadeiramente a Tradição doutrinal e litúrgica da Santa Igreja.


Um panorama geral no país indica um diagnóstico desolador, que pode ser apontado especificamente nos casos das importantes arquidioceses do Rio de Janeiro, Salvador e Olinda e Recife.

As duas primeiras, mergulhadas nas manobras das autoridades arquidiocesanas, que, com uma política de protelação, em condições degradantes, afundam os fiéis através de um menosprezo sistemático às suas necessidades espirituais e, sobretudo, à dignidade e respeito que merece o rito de São Gregório Magno.

Para piorar, a notícia desoladora do fim da Santa Missa em Recife reforça ainda mais o estado de desalento em que inelutavelmente caem os fiéis, abandonados pela hierarquia da Igreja. E essa, na realidade, é uma situação que se repete em muitas outras dioceses, onde padres piedosos, conscientes e que verdadeiramente amam a Missa de Sempre, sucumbem ao peso insuportável de intrigas e incompreensões de seus confrades ou ordinários.

Embora alguns tentem culpar sempre os ditos “tradicionalistas” pelos sucessivos naufrágios de suas naus, a situação dessas importantes arquidioceses brasileiras deve levar os católicos a uma profunda reflexão.

Quem são os padres a atender — quando isso ocorre… — à demanda pela missa tradicional?

Normalmente, são padres designados por seus ordinários; homens de confiança que possam garantir a consonância dessa nova “realidade eclesial” com toda a “pastoral” desenvolvida pelos que ocupam as posições de importância nas dioceses brasileiras.

De maneira geral, trata-se de homens de bom caráter que se dispõem a ocupar a função indesejável de cuidar do que consideram barris de pólvora: os grupos desejosos da missa tradicional. Todavia, na maioria das vezes são sacerdotes que, no máximo, consideram a situação calamitosa da Igreja como um desvio do programa de reforma proposto pelo Concílio Vaticano II, causado pela má interpretação de seu textos tanto pelos de direita quanto pelos de esquerda. Padres que têm a missa tradicional como mais um “carisma” dentro do cardápio eclesial variado que surgiu após o infeliz aggionarmento conciliar.

Enfim, padres sem idéias claras sobre a atual crise da Igreja, suas causas e seus desdobramentos; sacerdotes sem convicções sobre os problemas do novo ordinário da missa promulgado por Paulo VI e seu afastamento “impressionante, tanto no conjunto como nos detalhes, da teologia católica da santa Missa, perpetuamente definida pelo Concílio de Trento” (cf. Breve Exame do Novo Ordo da Missa, crítica enviada ao Santo Padre em 3 de setembro de 1969 pelos Cardeais Ottaviani e Bacci).

Precisamos de um novo Dom Antonio de Castro Mayer, de um outro Dom Marcel Lefebvre, de um Monsenhor Ducaud-Bourget, de um Padre Louis Demornex — padres dispostos a dar o sangue pela Santa Igreja, por sua liturgia e doutrina. Não precisamos de padres que se dignem prestar simplesmente um favor aos fiéis; precisamos de padres que nos guiem, que exerçam seu ministério de cura das almas de maneira plena, que vão à frente dos católicos defendendo-os dos lobos, especialmente os mitrados ou de batina. E isso só se dará quando esses mesmos padres tiverem absoluta convicção que a “restauração de todas as coisas em Cristo” passa única e exclusivamente por um caminho: a restauração da liturgia católica em seu rito romano tradicional e a afirmação clara e inequívoca da verdade católica, sem tergiversações.

O amor à liturgia tradicional e o empenho por ter nela a base para um apostolado para a maior glória de Deus e benefício das almas foi imprescindível para o sucesso nos poucos lugares em que as disposições do documento pontifício foram aplicadas corretamente. Enquanto a missa for objeto de curiosidade ou de mero apreço estético, histórico ou cultural, e não uma questão de fé, dificilmente pode-se esperar que as sombras sejam dissipadas.

Sancte Pie X, ora pro nobis!

Fonte: Fratres in Unum

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Mons. Pozzo, a exclusividade do rito tradicional e o Vaticano II.

Em agosto do ano passado, os Beneditinos da Imaculada, comunidade fundada pelo Padre Jehan, egresso do mosteiro do Barroux por não aceitar a política bi-ritualista que vem se implantando naquela abadia, tiveram uma audiência com Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei. Os monges relataram a conversa, cuja tradução segue abaixo:

Mons. Guido Pozzo em visita ao IBP-Roma.

Mons. Pozzo quis esclarecer que, segundo a carta que acompanha o motu proprio Summorum Pontificum, o rito romano existe em duas formas e que nenhum padre “pode se recusar, em princípio, a celebrar de acordo com uma ou outra forma”. Concretamente, isso implica, para ele, que, se um padre, celebrando normalmente segundo a forma extraordinária, se encontrasse numa situação de necessidade pastoral na qual a autoridade competente exigesse uma celebração segundo a forma ordinária, ele deveria aceitar fazê-lo.

Mons. Pozzo, no entanto, escutou a opinião que Mons. Stankiewicz, decano do tribunal da Rota, exprimiu ao Padre Jehan após ter lido cuidadosamente as constituições do Barroux, e segundo a qual um monge-padre do Barroux não tem o direito de celebrar segundo o Novus Ordo Missae, tanto no exterior como no interior do mosteiro. Assim, a obrigação de celebrar segundo o rito antigo seria um direito-dever específico que se aplica aos monges do Barroux, sendo tal verdadeiro onde quer que eles se encontrem.

Mons. Pozzo disse que conhecia Mons. Stankiewicz. Por sua vez, acrescentou que, ainda que a carta pontifícia que acompanha Summorum Pontificum precise que os padres que celebram o rito antigo não podem recusar por princípio a celebração do novo, ela deixa aberta, no entanto, a possibilidade de um direito próprio para certas sociedades cujos membros celebrariam segundo o rito antigo exclusivamente.

No que diz respeito ao Concílio Vaticano II, para Mons. Pozzo, o problema não está tanto nos textos como na sua interpretação e aplicação abusivas, de acordo com o famoso “espírito do Concílio”. Mas, após tantos e tantos anos de quase monopólio de expressão pública nas mídias e na Igreja, agora é muito difícil separar este “espírito do Concílio” dos textos em si. É necessário, portanto, fazer compreender esta distinção à FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X) e, assim, seus membros poderão aceitar os textos do Concílio.

Quando lhe foi respondido que a FSSPX conhecia bem esse discurso e persistia em sustentar que há problemas graves nos próprios textos do Concílio, Mons. Pozzo modificou sua posição:

– É verdade, acrescentou, que há passagens mal formuladas e pouco claras nesses textos. Isso se deve ao fato de que os padres conciliares queriam evitar a linguagem teológica clássica, para falar de uma maneira “mais acessível aos homens da época”. Isso pôde provocar ambigüidades, mas não significa uma intenção de negar ou mudar a doutrina católica tradicional. Pelo contrário, os padres consideravam que a doutrina católica era uma coisa estabelecida. Tratava-se apenas de alterar a maneira de se exprimir por razões pastorais. Nesta ótica, é, portanto, legítimo criticar as passagens que não são muito claras do ponto de vista da doutrina tal como fora ensinada anteriormente. Mas não é necessário lhes atribuir um significado heterodoxo, pois não havia nenhuma intenção de mudar a doutrina tradicional. Conforme uma sã hermenêutica, é necessário compreender tais passagens do Vaticano II que geram dificuldade num sentido que não contradiz o Magistério constante anterior, pois é o mesmo Magistério que ensina a todas as épocas.

– É necessário, então, distinguir nos documentos, e em cada documento, as reafirmações do dogma e da fé tradicional, as propostas ensinadas como doutrina do Magistério autêntico, das exortações, diretrizes, e, finalmente, das opiniões e explicações teológicas que o Concílio propôs sem qualquer pretensão de vincular (pretesa di vincolare) a consciência católica. Não se deve, portanto, impor aos católicos a aceitação pura e simples de opiniões que o próprio Concílio não impôs com a pretensão de exigir o assentimento intelectual. A esse respeito, seria útil fazer uso das notas teológicas que a teologia e o Magistério formaram durante os séculos. Infelizmente, hoje até mesmo os bispos não são capazes de fazer tais matizes nos documentos da Igreja.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ecclesia Dei: o uso das variações litúrgicas próprias das Ordens Religiosas fica a juízo de seus superiores.


Esta é uma resposta datada de 15 de outubro de 2009, mas que se tornou pública apenas agora. A Ecclesia Dei foi solicitada a precisar se, em virtude de sua própria iniciativa, as ordens religiosas, tendo conhecido um ritual próprio antes da reforma litúrgica, podem utilizá-lo para celebrar.

A resposta é infelizmente negativa: o motu proprio atribui uma plena liberdade para os padres, sem nenhuma licença ou autorização, utilizarem os livros litúrgicos em uso em 1962, mas para os rituais que são utilizados nas diversas ordens religiosas, a questão é remetida aos superiores das ordens.

Por exemplo, um franciscano pode, por sua própria iniciativa e sem pedir nada a ninguém, seguir o Missal Romano de 1962. Está excluído, contudo, o uso do Missal seráfico utilizado em 1962 por sua ordem, se os superiores da Ordem não decidirem favoravelmente.

Mas quais eram as ordens que gozavam de um ritual?

Ei-los:

Franciscanos

Dominicanos

Carmelitas

Servitas

Norbertinos

Beneditinos

Cartuxos

Cistercienses

Fonte: Le Forum Catholique

Visto em: Fratres in Unum

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Duas notáveis visitas.

A casa do Instituto do Bom Pastor, em Roma, recebeu recentemente duas insignes visitas. A primeira, de Monsenhor Guido Marini, mestre de cerimônias do Papa Bento XVI, que proferiu uma conferência espiritual no início do advento.

A segunda, de Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, que presidiu o ofício das vésperas e “no decorrer de sua conferência sobre o sentido do Advento, nos lembra que a história não é nem branca nem preta, mas feita de fraqueza humana e sempre iluminada por Deus. “Rezai por mim”. Rezai, nos diz Monsenhor, para que o Papa encontre em seus colaboradores homens de qualidade e de confiança que o apoiem e transmitam sua mensagem e seus projetos”. Nas palavras do abbé de Cazenove, Monsenhor Pozzo brindou a todos com uma “lição simples e prática que nos fez do espírito católico, através da constatação e da análise dos incidentes na Igreja nestes últimos anos. Os princípios, muito claramente afirmados e sobre os quais nenhuma negociação é possível. Constatações lúcidas e pesadas sobre as últimas décadas. Por vezes, o lamento pela falta de esclarecimentos e de orientações por parte da hierarquia no passado. Uma recusa clara e nítida de uma resposta baseada sobre a ideologia e o ativismo revolucionário, a arma dos detratores da Igreja. Mas sempre a idéia de uma vitória pacífica e tranqüila do bem, do belo e do verdadeiro, pelo ensino e pela catequese, pela paciência e sobretudo pela atenção às pessoas, mesmo as mais opostas. Ao fundo, uma lição impressa de realismo, uma atitude que nada surpreende e nada desencoraja, pois ela conhece e por conseguinte… ama”.

Fonte: Fratres in Unum


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Guia "oficial" da Missa _ Santa Sé

Retirado de Rorate Caeli

Em agosto, Rorate Caeli fez notar que a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei havia disponibilizado seu próprio DVD para a celebração adequada da Missa tradicional . Trechos já foram enviados para o YouTube:












segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Mons. Guido Pozzo celebra no aniversário do Summorum Pontificum

Ontem, domingo, 20 de setembro, a paróquia FSSP em Roma, SS. Trinita, comemorou o aniversário do Summorum Pontificum com a celebração de uma missa solene por Mons. Guido Pozzo, o novo Secretário da Ecclesia Dei.

John Sonnen em Orbis Catholicus Secundus tem as fotos.






terça-feira, 8 de setembro de 2009

Diálogo Roma-FSSPX/SSPX: las fichas

Le Salon Beige, Sep-08-2009, parece traernos algunos de los nombres que por parte de la Santa Sede intervendrán en el diálogo doctrinal con la FSSPX/SSPX, próximo a comenzar. Aunque no aparecen los créditos correspondientes, pensamos que esa información ha sido tomada del blog Le Suisse Romain, el cual publicó los nombres en Sep-07-2009.

La comisión «Ecclesia Dei» continuará el diálogo con Ecône, pero a nivel teológico y doctrinal, como fue anunciado por el Papa Benedicto XVI. Parece que tres teólogos de renombre están involucrados en estas discusiones, bajo el patrocinio de la Congregación para la Doctrina de la Fe: el Padre Charles Morerod, dominico, suizo, nuevo Secretario de la Comisión Teológica Internacional, Decano de la Facultad de Filosofía de la Universidad romana Santo Tomás de Aquino, quien ya ha participado en conversaciones preliminares con la FSSPX. el Padre Karl Becker, jesuíta, alemán, teólogo también muy cercano a Benedicto XVI, antiguo profesor en la Universidad Gregoriana. Y finalmente, Mons. Fernando Ocáriz, del Opus Dei, español, profesor en la Universidad Pontificia de la Santa Cruz en Roma. Por no mencionar a Mons. [Guido] Pozzo, nuevo Secretario de la Comisión «Ecclesia Dei».


visto em: Secretum Meum Mihi

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Novo Secretário da «Ecclesia Dei» celebrará segundo a Forma Extraordinária


Messa solenne il 20 Settembre:
Domenica 20 Settembre, la Messa solenne dell 10:30 sarà celebrata da Mons. Guido Pozzo, Segretario della Pontificia Commissione Ecclesia Dei, per festeggiare il secondo anniversario del Motu Proprio.
fonte: Santissima Trinità dei Pellegrini