sábado, 16 de abril de 2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Publicação de meu livro




Após um bom tempo sem escrever, venho anunciar a publicação de meu livro pela editora Unesp, sob o selo Cultura Acadêmica. O mesmo pode ser baixado de forma gratuita no seguinte endereço: http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=140

SACRIFICIUM LAUDIS
A HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE DE BENTO XVI E O RETORNO DO CATOLICISMO TRADICIONAL (1969-2009)

ASSUNTO: História
AUTOR(ES): DIAS, JULIANO ALVES
ISBN: 9788579831249
PÁGINAS: 133
ANO: 2010



Nesta obra pretende-se estudar as duas formas rituais da liturgia romana, comparando-as e procurando entender os motivos do cisma, ao mesmo tempo em que se pretende abarcar as ações do atual pontífice e as reações no mundo católico e fora dele. Para tanto, usar-se-á como fonte o Missal tridentino de 1570 e o novo Ordo Missæ de Paulo VI de 1969, bem como os catecismos formulados após os Concílios de Trento (1545-1563) e o Vaticano II (1962-1965), tendo por objetivo comparar suas notificações sobre o culto católico e seu significado. Durante o processo de análise tem-se a intenção de vislumbrar o impacto das mudanças no seio da Igreja, pois constata-se uma espécie de endurecimento no final do pontificado de João Paulo II, com a promulgação de documentos litúrgicos que tendem a criar empecilhos para possíveis abusos durante a missa (Ecclesia de Eucharistia, 2003) - há a retomada e destaque do sentido sacrificial do culto católico e uma série de recomendações impostas pela Congregação do Culto Divino para celebração da missa (Redemptionis Sacramentum, 2004). Fato é que, quarenta anos após o mencionado Concílio Vaticano II e quase quatro décadas de utilização do novo rito da missa, é rara qualquer menção específica na historiografia recente da Igreja sobre o andamento de tal tema. A maioria dos livros de história da Igreja que traça um levantamento de fatos até o Vaticano II, apresentam-no como uma espécie de revolução interna da estrutura eclesiástica sem, contudo, aprofundar o tema ou mostrar as crises na Igreja decorrentes deste.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

BENTO XVI RECORDA TEÓLOGO ROMANO GUARDINI: A LIBERDADE É VERDADE

Cidade do Vaticano, 29 out (RV) -A visão cristã do mundo como instrumento para aproximar-nos da verdade de Deus. Foi nesse longo percurso interior, marcado pelo diálogo com o outro, que Romano Guardini viveu a sua vida de sacerdote e teólogo.

Bento XVI – que foi aluno de Guardini – falou sobre os pontos fundamentais da reflexão do teólogo na audiência concedida na manhã desta sexta-feira, no Vaticano, aos participantes do Congresso promovido pela Fundação "Romano Guardini", dedicado à análise da "herança espiritual e intelectual" do estudioso ítalo-alemão, falecido há 40 anos.

"Um homem do diálogo interior" e do intercâmbio cultural com os homens, apaixonado "pela verdade de Deus e pela verdade sobre o homem": não como mero exercício de abstração, mas como busca que leva à escolha do bem em relação ao próximo.

Bento XVI – que quando jovem teve a oportunidade de ouvi-lo e de estudar suas obras – fez uma reflexão competente e admirada acerca de Romano Guardini, celebrado nestes dias por um Congresso da Fundação berlinense que traz o nome do teólogo nascido em Verona – nordeste da Itália – em 1885, e falecido em outubro de 1968 em Munique, sul da Alemanha.

O Papa recordou que não interessava ao teólogo Guardini "conhecer uma coisa qualquer ou muitas coisas; ele queria conhecer a verdade de Deus e a verdade sobre o Homem", descobrir o que significa a visão cristã do mundo:

"E era essa orientação de seu ensinamento que havia impressionado nós, jovens: de fato, nós não queríamos conhecer uma explosão de todas as opiniões que existiam dentro ou fora do cristianismo, porque nós queríamos conhecer aquilo que é. E ali estava alguém que, sem medos e, ao mesmo tempo, com toda a seriedade do pensamento crítico, se colocava diante dessa interrogação e nos ajudava a seguir o pensamento."

Todavia – prosseguiu o Santo Padre – embora a verdade de Deus "não seja abstrata ou transcendente, mas se encontre no vivo-concreto, na figura de Jesus Cristo", por vezes, mesmo o homem mais disponível "nem sempre" compreende "aquilo que Deus diz". É preciso, então, "um corretivo, e isso consiste no intercâmbio com o outro":

"Guardini era um homem do diálogo. As suas obras nasceram, quase sem exceção, de um diálogo, pelo menos interior (...) Para Guardini, da abertura do Homem para a verdade nasce um ethos, um fundamento para o nosso comportamento moral em relação ao nosso próximo, como exigência da nossa existência, justamente porque o homem pode encontrar Deus, pode agir em favor do bem."

Bento XVI afirmou que Guardini foi também um sensível pedagogo para os jovens. Purificava os ideais juvenis de autodeterminação, responsabilidade e sinceridade interior ensinando que a "liberdade é verdade" e que o homem é verdadeiro se o é "segundo a sua natureza" que leva a Deus. (RL)

Fonte: Radio Vaticano

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dom Athanasius Schneider: 54 linhas para descrever como pode ser enriquecida a Nova Missa. Para a Missa Tradicional, 7…

Apresentamos um excerto da entrevista concedida por Dom Athanasius Schneider, ex-professor do seminário de Anápolis, GO, e hoje bispo auxiliar de Karaganda, no Cazaquistão, à Paix Liturgique.

No Motu Proprio que decretou, Summorum Pontificum, Bento XVI formulou um convite explícito ao recíproco enriquecimento das duas formas do único rito romano. Na opinião do Senhor Dom Atanásio, que de bom grado celebra nas duas formas do rito, em que aspectos poderia este enriquecimento manifestar-se de modo mais frutuoso?

AS: Temos de levar o Papa a sério. Não se pode continuar a agir como se ele não tivesse dito essa frase. Ou, aliás, como se ele não a tivesse escrito. Claro está que, mesmo sem que haja necessidade de rever os missais, há meios para proceder a uma aproximação das duas formas do rito.

Uma primeira ideia poderia ser a de celebrar versus Deum a partir do Ofertório, como de resto é previsto pelas rubricas do novo missal. Com efeito, o missal de Paulo VI indica claramente dois momentos em que o celebrante se deve voltar para o povo. Uma primeira vez, no momento do “Orate fratres”, e uma segunda, quando o sacerdote diz “Ecce Agnus Dei”, por altura da comunhão dos fiéis. Que significado dar a estas indicações senão a de que o sacerdote deverá estar voltado para o altar durante o Ofertório e o Cânon? Em Setembro de 2000, a Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos publicou uma resposta relativa a um quesito sobre a orientação [posição] do sacerdote durante a Missa. Ao explicar que «a posição versus populum parece a mais cómoda na medida em que ela torna mais fácil a comunicação», ela precisava, no entanto, que «supor que a acção sacrificial deve ser orientada principalmente para a comunidade seria um grave erro. Se o sacerdote celebra versus populum, coisa legítima e frequentemente aconselhável, a sua orientação espiritual deve estar sempre voltada para Deus por Jesus Cristo».

Parece-me que, hoje e dia, esta resposta que vinha defender a celebração face ao povo poderia ser adaptada à nova realidade criada pelo MP Summorum Pontificum mediante uma recomendação no sentido de se celebrar voltado para o Oriente a partir do Ofertório.

No que toca à comunhão, a Santa Sé também poderia publicar uma recomendação universal a fim de lembrar o que está previsto na Instrução Geral do Missal Romano, no seu artigo 160°: «Os fiéis comungam de joelhos ou de pé, segundo a determinação da Conferência Episcopal. Quando comungam de pé, recomenda-se que, antes de receberem o Sacramento, façam a devida reverência, estabelecida pelas mesmas normas.» Cabe pois sublinhar que a primeira forma de comunhão a ser referida pelo texto oficial da Igreja destinado a comentar o Novus Ordo é a forma de comunhão de joelhos…

Uma outra possibilidade de enriquecimento da nova liturgia seria a de que as leituras da Bíblia Sagrada fossem feitas por homens em vestes litúrgicas e em caso algum por mulheres ou homens vestidos à civil. E isto porque as leituras são feitas no presbitério, um lugar que desde os tempos apostólicos é reservado ao sacerdote e aos ministros ordenados, aí se incluindo os clérigos com ordens menores. Só na falta destes últimos é que um leigo (homem) podia vir suprir. O serviço do altar, de leitor ou de acólito, não é um exercício do sacerdócio comum, fazendo antes parte do sacerdócio sagrado, em especial do diaconato. É por esta razão que, pelo menos a partir do século III, a Igreja concebeu as ordens menores como uma espécie de introdução às diferentes funções contidas no exercício do diaconato, como, por exemplo, a guarda do santuário e o chamamento dos fiéis à liturgia (ostiário), a leitura da palavra de Deus durante a liturgia (leitor), expulsar os espíritos malignos (exorcista), transportar a luz e servir ao altar (acólito). Assim, é-nos mais fácil compreender porque é que, tradicionalmente, a Igreja reservou a atribuição das ordens menores e a instituição de leitores ou de acólitos apenas a fiéis homens.

Neste sentido, bem se compreende que um dos enriquecimentos permitidos pela aproximação das duas formas litúrgicas consistisse em retornar à sã tradição de reservar o presbitério apenas aos homens: diáconos, acólitos, leitores e crianças de coro (ou coroinhas), todos eles devem ser do sexo masculino. De nada adianta que nos lamentemos do descalabro das vocações quando os rapazes deixam de ser chamados para o serviço do altar.

Por fim, a oração dos fiéis deve ficar reservada apenas aos diáconos, acólitos ou leitores, todos com hábitos litúrgicos. Até seria mais coerente com a tradição bimilenar da Igreja, tanto ocidental como oriental, que esta oração dos fiéis, ou oração universal, fosse proclamada, ou melhor ainda, cantada, unicamente pelo diácono, pois que antes ela recebia o nome de “oratio diaconalis”. Na falta de diácono, seria bom que fosse o próprio sacerdote a lê-la, como de resto acontece com o evangelho. O termo oração dos “fiéis” não significa que a sua proclamação seja uma função dos fiéis. Acreditar nisso seria um erro histórico e litúrgico. De facto, o que isso indica é que ela decorria ao início da missa dos fiéis, depois que tivessem saído os catecúmenos, e quando o diácono ou o sacerdote oferecia à Majestade Divina as intenções de toda a Igreja, e portanto de todos os fiéis, daí o seu nome.

7) E no que respeita à forma extraordinária? De que maneira poderia ela enriquecer-se ao contactar com a forma ordinária do rito romano?

AS: Eu diria que se poderia aplicar à forma extraordinária o espírito que anima os últimos elementos que citei a propósito do Novus Ordo. As leituras sagradas deveriam ser sempre acessíveis aos fiéis, logo, na língua local e não apenas em latim, salvo em ocasiões especiais. Assim, também nesta forma, as leituras poderiam ser feitas por um leitor ordenado ou instituído, isto é, um fiel homem em hábitos litúrgicos. Uma iniciativa bela e útil seria a introdução de alguns prefácios do novo missal, e o mesmo se diga da introdução de novos santos no calendário litúrgico tradicional.

Fonte: Fratres in Unum

Algo mudou: Quatro anos com Monsenhor Guido Marini



Tutti l'hanno notato, tutti ne parlano, tanti ne scrivono: ma cosa ha combinato in questi ormai quattro anni il Monsignore genovese alle Liturgie Papali? Ha recuperato? Ha restaurato? Ha stravolto i piani del predecessore? Sicuramente ha chiuso un'epoca, in gran stile. Ha eliminato le danze, le simbologie e il neutro grigio. Ha ripristinato i troni dismessi dai tempi di Paolo VI, rispolverato paramenti antichi e tesori dimenticati. Ma la trovata migliore è stata sicuramente quella di porre il Crocifisso al centro dell'Altare, e ancora, la comunione sulla lingua ed in ginocchio, tutto secondo le direttive del vero regista, Papa Benedetto XVI che in Liturgia è vero intenditore. Il Guido Marini ha osato e probabilmente oserà ancora. Per rivivere questi (quasi) quattro anni di belle Liturgie Papali, ecco qualche immagine:













immagini da Corbis.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dom Kurt Koch, o Papa e o Vaticano II.

Dom Koch, novo presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Dom Koch, novo presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Cidade do Vaticano (Quarta-feira, 13-10-2010, Gaudium Press) Nesta entrevista concedida a um de nossos correspondentes, o novo presidente do Pontifício Conselho da Unidade dos Cristãos, o arcebispo suiço, Dom Kurt Koch, fala, entre outros assuntos, sobre os discursos que proferiu no Ratzinger Schülerkreis” – tradicional encontro do Santo Padre com seus ex-alunos – realizado no dia 28 de agosto passado em Castel Gandolfo. Na ocasião, Dom Koch abordou basicamente as diferentes hermenêuticas relativas ao Concílio Vaticano II, inclusive a do Papa Bento XVI.

Gaudium Press – Sua Excelência em seu primeiro discurso apresenta três hermenêuticas diversas. Quais são as suas diferenças e suas consequências para a Igreja Católica na realização do Concílio Vaticano II?
Cada Concílio é a mesma coisa: de um lado, é arraigado na tradição, mas por outro, o seu olhar é dirigido ao futuro, porque é ali que se encontram os novos desafios e os novos compromissos. Assim foi também para o Concílio Vaticano II, aliás, talvez mais evidente ainda, visto que o Santo Padre João XXIII havia falado de uma atualização para renovar a doutrina da Igreja no novo contexto, e esclareceu desde o início que não queria uma nova doutrina. Agora temos duas hermenêuticas opostas: a hermenêutica da continuidade absoluta, que quer dizer que o Vaticano II não deve dizer coisas novas, mas somente confirmar, porque tudo já estava na tradição, e a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, que quer dizer que com o Vaticano II deve ter início uma outra Igreja…O Santo Padre falou em seu primeiro discurso na Cúria Romana, no Natal de 2005, que é necessária uma nova hermenêutica, aquela da reforma, que quer significar que deve-se renovar, porém dentro da grande tradição e da grande continuidade.

GP – Como caminho certo para a interpretação dos documentos conciliares, Sua Excelência propõe, seguindo o Santo Padre Bento XVI, uma “reforma da reforma” também no campo litúrgico. Qual é o significado desta hermenêutica?
Do ponto de vista dos fiéis, o primeiro efeito do Concílio foi a reforma da liturgia. As pessoas pensavam que a reforma da liturgia fosse um resultado do Concílio Vaticano II. Mas entre a Constituição da Sagrada Liturgia Sacrosanctum concilium e a reforma da liturgia verdadeira existe uma diferença. A Constituição, apresentando os novos textos, não eliminou os velhos livros da liturgia, mas previu uma reforma e estabeleceu as linhas guias para atuá-la em base as quais, depois do Concílio, foi dado início à reforma da liturgia e dos sacramentos. Sucessivamente foi criada uma nova situação. Sem dúvida a reforma deu muitos bons frutos, mas criou também alguns problemas. Porque quando as pessoas escutam a palavra “reforma” logo pensam que há uma nova liturgia, criada pelo Concílio e não arraigada na tradição. É por isso que algumas pessoas pensaram: “Nós queremos continuar com a nossa liturgia tradicional”. Sobre essa atitude conservadora o Santo Padre disse: “não. Há uma liturgia da reforma que é ainda arraigada na tradição, mas que é também aberta para o futuro”. Entre a Constituição Sacrosantum concilium e a reforma não há uma total identidade. Depois de alguns anos pode-se ver que tudo o que o Concílio quis foi encarnado na liturgia de hoje. Mas se vê que alguns elementos da Constituição sobre a liturgia não foram ainda percebidos pelo povo de Deus, por isto, hoje se deve pensar a como se pode aprofundar o Concílio Vaticano II.

GP – Quais são estes problemas?
Antes de mais nada, penso que a importância da adoração não esteja bem presente nos fiéis. Depois do Concilio se fala muito sobre como aumentar a participação dos fiéis na liturgia e isso é certamente um aspecto muito importante. Por isso se pensou em o que fazer para que os laicos possam participar mais ativamente e intensamente da liturgia. O participar, compreende essa liturgia, quer dizer a maneira de celebrar e de participar da Missa como um ato de adoração. Depois do Concílio há uma grande separação entre a adoração eucarística e a celebração da Missa. Hoje temos um despertar da adoração eucarística fora da Missa. Para mim é muito importante que reconheçamos de novo que a eucaristia é o ato fundamental da adoração. A segunda coisa diz respeito a todo o aspecto do sacrifício eucarístico, que na Santa Missa, depois do Concílio, foi um pouco negligenciado. É dito que a eucaristia é, principalmente uma ceia e não um sacrifício. Aqui temos um conflito e uma ruptura entre duas concepções diversas e isto não é correto.

GP – Na mídia o Santo Padre é visto como um tradicionalista que quer levar a Igreja aos tempos que antecederam o Concílio. Diversamente, Sua Excelência sustenta que o Papa Benedetto XVI seja o “maior intérprete do Vaticano II”. Qual é a verdadeira atitude do Papa em relação ao Concílio Vaticano II?
Há dois equívocos. O primeiro fala da hermenêutica de continuidade do Santo Padre, porque, diz-se que seja um tradicionalista, mas ele não tem uma hermenêutica de continuidade, mas a hermenêutica da reforma. Infelizmente, graças também a Hans Küng , a opinião difusa é que seja atualmente em vigor a hermenêutica da ruptura. É por esse motivo que as pessoas pensam que na realidade a hermenêutica da reforma levará de volta a Igreja aos tempos antecedentes ao Concílio. O Santo Padre, contrariamente, não quer de maneira alguma ir para trás e não que começar uma falsa hermenêutica do Vaticano II.

GP – Porém os atos papais do Motu Proprio Summorum Pontificum e a revogação da excomunhão dos quatro bispos lefebvrianos reforçaram essa opinião, tornando-se assim objeto de fortes críticas. Qual é o significado desses atos papais? Porque essas decisões?
A hermenêutica da ruptura diz que todo o rito tridentino é uma Missa velha, depois do Concílio temos uma Missa nova. Mas na história nem sempre foi assim, há sempre uma evolução contínua na liturgia. O problema se apresenta sempre da mesma maneira durante os séculos: quando a liturgia foi renovada pelo Papa Pio V depois do Concílio de Trento, que porém havia estabelecido que todos os ritos mais velhos do que 200 anos poderiam permanecer em uso. O Santo Padre quis, de fato, que a reforma da liturgia de João XXIII, de 1962, não fosse somente uma coisa do passado, mas também uma herança para o presente e para o futuro.

GP – Qual é a verdadeira contribuição de Bento XVI na elaboração da nova liturgia? Como o então professor Joseph Ratzinger escreveu o famoso livro sobre a liturgia, Lo spirito della liturgia (O espírito da liturgia)?
Creio que tudo dependa da cristologia do Santo Padre, porque a liturgia depende da cristologia. Se Jesus fosse somente um homem que viveu há dois mil anos, o que faríamos da liturgia? Se como cristãos acreditamos, diversamente, que Cristo é Filho de Deus, morto e ressuscitado por nós, então na liturgia há a Sua presença e a celebração é feita em memória d’Ele. A liturgia, em primeiro lugar não é uma ação dos homens, mas a ação do próprio Cristo presente na liturgia. Esse é o primeiro ponto.

O segundo é que há uma grande unidade e continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. No Antigo temos o culto do templo, o Novo Testamento diz que o próprio Cristo ressuscitado é o novo templo. Por isto não temos mais o sacrifício dos animais, mas temos um sacrifício muito pessoal. O sacrifício do Novo Testamento é Jesus Cristo que dá Sua vida por nós e essa é a nova dimensão do sacrifício, que deve estar presente na liturgia da eucaristia.

O terceiro ponto é que a visão teológica da liturgia vista pelo Santo Padre é uma liturgia cósmica. Hoje temos algumas vezes a impressão que a liturgia seja uma ação da comunidade presente. Mas para o Santo Padre a liturgia tem uma dimensão cosmológica e também é a ponte entre liturgia celeste e liturgia terrena. Neste sentido o Santo Padre disse que a direção preferível para celebrar a Missa é voltado para o leste. Ele quer renovar essa dimensão cosmológica da liturgia. É claro que não podemos mudar os altares de novo. Por isso o Santo Padre disse que é necessário colocar pelo menos um sinal do Crucifixo sobre o altar, de modo que seja visível para o sacerdote e para os fiéis, para lembrar, através da eucaristia, que o Cristo crucificado também ressuscitou.

GP – Pela primeira vez Sua Excelência participou do Ratzinger Schülerkreis e “tornou-se” aluno de Ratzinger: O “L’Osservatore Romano” em um breve artigo citando suas palavras disse que foi uma “experiência concreta, viva, positiva”. Também para nós, Sua Excelência pode descrever como era a atmosfera de um dia passado junto ao Santo Padre com seus ex-alunos?
Era uma atmosfera muito cordial e muito aberta. O Santo Padre participava pessoalmente durante o dia todo das conferências e das discussões. Ele escutava muito atentamente e, concluídas as intervenções, havia uma discussão na presença de seus 40 estudantes. Bento XVI ama a discussão. Tive porém um pouco a impressão que houvesse ainda uma atitude de “professor”. Não posso mais tornar-me um seu aluno porque nunca fui no passado, mas tenho uma ótima relação com esse Kreis. Foi criado um segundo círculo de novos alunos para o aprofundamento da teologia do Santo Padre. São teólogos muito jovens e muito apaixonados e contentes de estudar a teologia do Santo Padre. Estudam e aprofundam temas diversos: da política à tradição de continuidade, à liturgia.

Fonte: Fratres in Unum

domingo, 24 de outubro de 2010

A Tiara retornaria sobre a cabeça de Bento XVI?

Após comentários do site Golias, a Associação Cultural Monfort se debruçou sobre o tema. Mas cabe algumas questões: o Papa usaria a Tiara sem antes ter sido coroado? ou será que o foi dentro dos muros do Vaticano? Tudo isso seria viagem demais? Os textos citados abaixo não fazem menção a esta problemática, fala de indicações para o colégio de cardeais e sobre o possível uso da Tiara neste Natal:

A batina de cem botões e a tiara
Ivone Fedeli
Publicamos hoje duas traduções de notícias do site ultraprogressita golias.fr; e fazêmo-lo com grande prazer. Porque, embora Golias tenha uma perspectiva que é o avesso da professada por nós, concordamos fundamentalmente com tudo o que essas notícias afirmam, bastando apenas notar que nos alegramos com o que os entristece e nos entristecemos com o que os alegra. Situação análoga à do famoso prelado que, surdo e incapaz de ouvir os discursos dos bispos durante as discussões sobre a infalibilidade papal no Concílio Vaticano I, ficava atento ao esquerdista Cardeal Dupanloup e sabia sempre escolher a sua posição: opunha-se, quando Dupanloup apoiava e aplaudia quando Dupanloup protestava...
O primeiro texto refere-se à nomeação do Cardeal Piacenza para o Congregação do Clero e o segundo à auspiciosa volta da tiara às armas papais e, em breve, à augusta cabeça do Soberano Pontífice. Dois temas que, de si, não são conexos, mas que, contudo são aspectos de uma mesma transformação que, sob o comando do Santo Padre Bento XVI, gloriosamente reinante, vai suave, mas inexoravelmente, ocorrendo na Igreja.
A batina – de que Golias afirma que D. Piacenza é um grande adepto – e a tiara, que faz ulular de raiva aquele site, são dois símbolos de uma mesma mentalidade, de um mesmo modo de ver a Igreja.
Uma mentalidade que enxerga no padre o ministro de Deus, dedicado às coisas do alto e a conduzir às coisas do alto o rebanho do Senhor. Alguém que está no mundo, mas não é do mundo e que manifesta pela batina esse seu alheamento do mundano e essa sua consagração absoluta ao serviço de Deus, através do serviço das almas.
Uma mentalidade que vê no Papa o Vigário de Cristo e, como tal, com direito a usar a tiara -- também chamada de Regnum -- coroa tríplice que indica a unidade da Igreja e a suprema suserania do Papa sobre toda a Cristandade, como Soberano Universal da Igreja Una, Soberano dos Estados Pontifícios, e Bispo de Roma. (Ver sobre isso nesta carta).
Portanto, uma mentalidade oposta à adaptação da Igreja ao mundo, propugnada pelo Vaticano II, e à "maciça auto-secularização" da Igreja – na expressão do Cardeal Schönbrum, ocorrida durante os quarenta anos que se seguiram ao Concílio. (Ver notícia sobre isso).
Duas notícias, portanto, que designam dois elos da robusta corrente de reconstruções e restaurações que o Santo Padre vai encadeando para prender, com cada vez maior solidez, a
Santa Barca de Pedro às colunas de suas tradições doutrinárias e espirituais. Daí a fúria dos neomodernistas. Daí a alegria da Montfort.
Ivone Fedeli
São Paulo, 19/10/2010
Outubro 13, 2010 http://www.golias.fr/spip.php?article4528
Papa Bento XVI nomeia um ultraconservador para o comando da Congregação para o Clero

O nome do sucessor do cardeal Claudio Hummes como Prefeito da Congregação para o Clero acaba de ser revelado. Trata-se do secretário do mesmo dicastério, o arcebispo Mauro Piacenza, um italiano 66 anos que se declara filho espiritual do Cardeal Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova por mais de quarenta anos, que o ordenou padre.
Intelectualmente brilhante, Piacenza é também ultraconservador. Obviamente, essa escolha não é fortuita. Trata-se de uma recompensa outorgada àquele que foi a locomotiva do ano sacerdotal encerrado em junho. Mas, além disso, o bispo de Piacenza encarna uma visão arquitradicional do padre. Um detalhe, mas que diz muito, é seu apego incansável ao traje eclesiático. Os padres deveriam voltar a ser vivamente encorajados a usá-lo, de preferência a batina com cem botões. Na falta dela, o estrito colarinho romano. A única coisa boa sobre esta desastrosa escolha profundamente tradicionalista - que volta definitivamente as costas não apenas à idéia de reforma do ministério sacerdotal, mas também ao espírito do Concílio Vaticano II e à intuição de outros modos de exercício do ministério sacerdotal, como o dos padres operários – é que Piacenza desconfia como de uma praga do Opus Dei e dos neoconservadores. É um tomista afastado de um misticismo vaporoso.

Esta escolha é, certamente, uma ducha fria para seu antecessor no cargo, o brasileiro Claudio Hummes, antigo arcebispo de Fortaleza e de São Paulo. Um franciscano de 76 anos de idade, outrora bastante progressista, e que não renegou seus amores da juventude (teologia da libertação ), apesar de uma nítida mudança espiritualizante, se não conservadora. Em comparação com Piacenza, porém, ele faz figura de um homem de esquerda. Sabe-se que ele defendia a tese da ordenação de homens casados como sacerdotes, o que obviamente não será o caso de Piacenza!
O Papa fez ainda uma outra nomeação significativa, mas de nível mais baixo do que o que se prognosticava para o interessado. Trata-se de D. Robert Sarah, 65 anos, ex-arcebispo de Conakry – para onde foi nomeado há 34 anos! – atual secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. É um posto de confiança, principalmente devido às limitações do prefeito dessa Congregação, o Cardeal Ivan Dias, que não deu ao Papa grande satisfação e que está com a saúde debilitada. D. Sarah era citado, ainda há poucos dias, como o provável sucessor de Hummes a fim de - nas palavras de um prelado romano - dar cor a esse dicastério austero e prestigioso, o do Clero. Mas o Papa não teria nele a mesma confiança que tem Piacenza, homem da velha escola romana.
Mais próximo dos círculos neoconservadores, Sarah é, com efeito, considerado ortodoxo, mas não propriamente favorável ao retrocesso, e sujeito a explosões. Ele torna-se, portanto, chefe de um dicastério, mas de um dicastério menor, pois trata-se do Conselho "Cor Unum", no lugar do alemão Paul Josef Cordes, 76, um velho amigo de Ratzinger.
Piacenza será, evidentemente, criado cardeal no próximo consistório com um número bastante significativo de prelados italianos: para a Cúria, Angelo Amato, Velasio de Paolis, Fortunato Baldelli, Paolo Sardi, Gianfranco Ravasi e Francesco Monterisi. Sem mencionar dois arcebispos da Península, Giuseppe Anfossi, arcebispo de Florença e Paolo Romeo, arcebispo de Palermo. Na verdade, de todo esse areópago, Ratzinger só aprecia realmente os dois futuros cardeais ... Amato e ... Piacenza. Os outros só receberão o barrete vermelho devido a suas funções e a suas carreiras passadas.
A nomeação de Piacenza porta o cunho pessoal do papa. Promoções diretamente verticais (de secretário a prefeito de uma mesma congregação), são raras e desaconselháveis. Salvo uma confiança excepcional num homem incontornável. Sobretudo quando o promovido nunca teve um cargo na pastoral direta de uma diocese. O homem incontornável que é, sem dúvida, Mauro Piacenza aos olhos do Papa. Em seu plano de restauração.
A volta da tiara
Bento XVI varre a decisão de seus predecessores, Paulo VI e João Paulo II
Coisa anunciada, coisa logo realizada. A tiara que representa as três coroas do poder pontifical vai fazer seu come back dentro em pouco. Talvez no Natal, para a bênção urbi et orbi.
Essa festa se acompanha em geral de um apaziguamento dos conflitos ideológicos. O que é uma ocasião maravilhosa para fazer engolir uma pílula desse tamanho.
Enquanto isso, de certo modo a tiara já voltou, já que acompanha as novas armas do papa, como se pôde ver pela primeira vez no domingo 9 de outubro.
Evidentemente, um sinal muito importante.
Piscada de olho de entendimento para os tradicionalistas. Ofensa à memória de Paulo VI e dos dois Joões Paulos que não quiseram saber desse símbolo teocrático de outras eras, que exprime uma visão muito pouco evangélica do poder na Igreja.

Fonte: Montfort