sexta-feira, 2 de julho de 2010

Importantes nomeações: Oullet para os Bispos; Fisichella para a Nova Evangelização.

Como anunciamos anteriormente, o Santo Padre tornou públicas hoje as seguintes nomeações:
  • Do Cardeal Marc Ouellet, até agora arcebispo de Quebec, como prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, em substituição ao Cardeal Giovanni Battista Re, que apresentou sua renúncia por motivo de idade. Todo o infeliz imbroglio que envolveu esta nomeação pode ser relembrado aqui, aqui e aqui.
  • Do Arcebispo Salvatore Fisichella como presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, órgão criado por Bento XVI visando recristianizar os países do ocidente e retirar Dom Rino Fisichella da presidência da Academia Pontíficia para a Vida, após sua queda em desgraça com o caso Recife. Um dossiê completo pode ser encontrado aqui. Espera-se que, no manual da “nova evangelização” proposto pelo novo conselho, não conste nenhuma apologia ao “aborto por misericórdia”…
  • De Monsenhor Ignacio Carrasco de Paula, substituindo Fisichela na Academia para a Vida e de Don Enrico dal Covolo, S.D.B, como reitor da Universidade Lateranense.
  • De Monsenhor Celestino Migliore como Núncio Apostólico na Polônia. Migliore era, até então, Observador Permanente da Santa Sé na ONU.
Fonte: Fratres in Unum

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Uma questão de saúde pública?


Joga-se muito com a desatenção do povo, ou até com sua suposta ignorância. O presidente Lula, em que pese sua promessa nebulosa aos Bispos em 2005, é decididamente a favor do aborto. Acompanham-no nesta sua postura, o ministro da saúde, e é claro, sua presumida sucessora Dilma. Esta, para encantar o eleitorado católico, chegou a visitar oficialmente o Papa (sem ter convicção pessoal). O efeito foi conquistar os votos de clérigos, invadindo até seu primeiro escalão. A vitória se delineia fácil, e por isso não se vê necessidade de ocultar coisa nenhuma. Tudo é dito às claras. A resistência ao secularismo governamental é nula. É uma submissão geral. Os princípios cristãos que ainda vigem em nossa vida pública, deverão se retirar para a diáspora das consciências. Na frente de ouvintes qualificados Lula afirmou que a introdução da lei do aborto, “é uma questão de saúde pública em nosso país”. Lembramos o salmo: “Lembra-te do povo que redimiste como tua herança” (Sl 74,2).

É bom saber que existe muita manipulação de estatísticas, ao se falar sobre a taxa anual de abortos. Sobretudo são falsas as notícias sobre o número de mulheres mortas em decorrência de “abortos inseguros”. Segundo informações do DATASUS (2006), o número de mortes maternas em decorrência dessa prática, nunca passou de 163 por ano.(Ver “Faça alguma coisa pela vida” N. 96) Por isso diz-se falsamente que a legalização, “evitaria milhões de mortes maternas”. Uma vez que o governo faz apologia da interrupção da gravidez, por qualquer motivo, as grandes redes de TV precisam entrar nessa linha. Caso contrário perdem as ricas inserções de propaganda do poder público. Sem as benesses do governo até a Globo fecha. Por isso, mais do que rapidamente, foi introduzida a novela “Passione”, que procura fazer a cabeça do povo, a mando do governo. Vamos supor, por um exagero de fantasia, que o governo declarasse que o assalto às residências deve ser assunto de “saúde pública”. Para tal efeito se publicariam estatísticas incrementadas de mortes de assaltantes, cujas investidas estariam sendo feitas em condições inseguras. Para completar a hílare situação, o governo proporia legalizar o assalto, para que todo cidadão, rico ou pobre, pudesse realizar um assalto seguro. Essa é a conversa que os líderes da nação fazem ao falar de aborto.

Visto em: Fratres in Unum

sábado, 26 de junho de 2010

A curva de Padre Ratzinger a Bento XVI.


Resenha de Nicholas Lash – National Catholic Reporter

THEOLOGICAL HIGHLIGHTS OF VATICAN II [DESTAQUES TEOLÓGICOS DO VATICANO II]
Por Joseph Ratzinger
Publicado pela Paulist Press, $ 16,95

Após cada uma das quatro sessões do Concílio Vaticano II, Joseph Ratzinger, o jovem teólogo alemão que atuou como consultor perito do Cardeal Joseph Frings, de Colônia, na Alemanha, publicava um livreto informativo sobre a sessão recém concluída. Em 1966, um ano após o término do concílio, esses livretos foram recolhidos em forma de livro, tanto em inglês quanto em alemão. Agora este livro foi reeditado, com uma introdução feita pelo padre jesuíta Thomas Rausch.

Embora a primeira sessão do concílio não tenha produzido resultados concretos, de acordo com Ratzinger, ela foi excepcionalmente importante por dois motivos. Em primeiro lugar, ao recusar-se a endossar os materiais preparados pela Cúria Romana, “o colégio dos bispos” demonstrou que “era uma realidade em si”. O esquema preparatório sobre a revelação, por exemplo, foi “completamente um produto da mentalidade ‘anti-modernista’”, de acordo com Ratzinger. Será que a “negação quase neurótica de tudo o que era novo” continuaria? Ou será que a Igreja “viraria uma nova página, e seguiria em frente em um encontro novo e positivo com as suas próprias origens, com os seus irmãos, e com o mundo contemporâneo? Uma vez que uma clara maioria dos padres optaram pela segunda alternativa, podemos mesmo falar do concílio como um novo começo”.

Ao rejeitar o esquema da revelação, “o concílio tinha afirmado a sua própria autoridade magisterial. E agora, contra as congregações da Cúria, que servem a Santa Sé e as suas funções de unificação, o concílio fez com que a voz do episcopado fosse ouvida – não, a voz da Igreja universal”.

Em segundo lugar, o primeiro capítulo da Constituição sobre a Sagrada Liturgia “contém uma declaração que representa uma inovação fundamental para a Igreja latina”. A declaração em questão é a estipulação de que, dentro de certos limites, as conferências episcopais “disponham em seu próprio direito uma função legislativa definitiva”. Ratzinger enxerga isso como de importância fundamental: “Talvez se possa dizer que este pequeno parágrafo, que, pela primeira vez, atribui às conferências episcopais a sua própria autoridade canônica, seja mais importante para a teologia do episcopado e para o fortalecimento a muito desejado do poder episcopal do que qualquer coisa na própria Constituição sobre a Igreja”.

O Padre Joseph Ratzinger durante o Concílio Vaticano II em 1962 (CNS / KNA)

Pe. Ratzinger durante o Concílio Vaticano II em 1962 (CNS / KNA)

Considerando que os Papas anteriores haviam “considerado a cúria como um assunto pessoal no qual o Concílio não tinha o direito de interferir”, em razão do discurso de abertura do Papa Paulo VI na segunda sessão, “o tema da reforma da Cúria foi… no sentido oficialmente declarado aberto para o debate do concílio”. A noção de colegialidade estava no coração e no centro dos debates sobre o esquema da Igreja: “Assim como Pedro pertencia à comunidade dos Doze, para que o Papa pertença ao colégio dos bispos, independentemente do papel especial que exerce, não fora, mas dentro do colégio”. Uma discussão posterior do esquema sobre os bispos buscou de forma concreta implementar o conceito de colegialidade, descentralizando o poder para bispos e conferências episcopais, e propor formas adequadas de centralização através da criação de um “concílio episcopal em Roma”.

As reflexões de Ratzinger no que tange os debates sobre o ecumenismo, o esquema em que pode ser visto como “uma aplicação pastoral da doutrina no esquema sobre a Igreja”, contém uma interessante discussão sobre a relação entre “igrejas” e “a igreja”, na forma de uma resposta detalhada à eclesiologia protestante apresentada em outubro de 1963 em uma conferência em Roma por Edmund Schlink de Heidelberg, na Alemanha.

Esta sessão viu a promulgação dos dois primeiros textos conciliares, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia e o Decreto sobre os Meios de Comunicação Social. A fórmula de Paulo VI de aprovação rompeu com o costume, desde o final da Idade Média, de considerar as decisões conciliares como sendo postas em vigor como lei papal: “Paulo, bispo, servo dos servos de Deus, juntamente com os padres conciliares” (o meu itálico).

Em setembro de 1964, “o capítulo sobre a colegialidade dos bispos foi aprovado logo na primeira votação por uma maioria de dois terços”. Não é de surpreender que, o capítulo de Ratzinger sobre a terceira sessão, durante o qual a Constituição sobre a Igreja foi promulgada, concentre-se sobre a doutrina da colegialidade episcopal e sobre a questão estrutural não desconexa das relações entre o Papa e o concílio.

Na primeira, Ratzinger diz que a noção de que a Igreja, que consiste de comunidades adoradoras, é “consequentemente construída a partir de uma comunidade de bispos … é provavelmente a idéia central na doutrina de colegialidade do concílio”. Ele coloca o dedo sobre o que ele chama de “fraqueza real do debate sobre a colegialidade”: “Tanta energia foi concentrada na relação de colegialidade como a primazia de que os problemas intrínsecos do próprio princípio da colegialidade, sua complexidade, seus limites e suas variações históricas não eram mais vistos”.

No que tange as relações entre o Papa e o concílio, ele acredita que as intervenções papais em novembro de 1964, embora necessárias no interesse da mediação entre as forças opostas no concílio, revelou que “o Papado não tinha ainda encontrado uma forma para a formulação de sua posição”, que não seja, e não pareça ser, monárquica. Esta, ele acredita ser um problema prático e não teórico, no sentido de que a resolução vai levar tempo: “A paciência é necessária”.

A característica mais marcante do capítulo sobre a terceira sessão, no entanto, aparece em seu discurso de encerramento. Observando que “o episcopado tornou-se mais aberto, de ano para ano”, e que, à medida que os bispos, “a partir de inícios um pouco tímidos e hesitantes”, encontravam voz e coragem, faziam declarações corajosas que “há cinco anos seriam impensáveis”, Ratzinger dá a entender que o “evento verdadeiro” do concílio foi “o despertar da Igreja”. Alcançado em uma unidade de propósito mundial, “este despertar espiritual… foi o grande e irrevogável evento do concílio. Ele foi mais importante em muitos aspectos do que os textos que aprovou”.

O Papa Bento XVI chega para celebrar uma missa que marca o quinto aniversário da morte do Papa João Paulo II na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 29 mar. (CNS / Paul Haring)

O Papa Bento XVI chega para celebrar uma missa que marca o quinto aniversário da morte do Papa João Paulo II na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 29 mar. (CNS / Paul Haring)

Agora as coisas estão ficando realmente interessantes, pois esta é exatamente a avaliação feita pelo falecido Giuseppe Alberigo, em sua conclusão para o quinto e último volume da maciça História do Concílio Vaticano II, do qual foi editor geral. Há já vários anos, os funcionários da cúria romana vêm realizando uma campanha enérgica de polêmica e declarações errôneas contra essa história, em uma tentativa de desacreditar a história que ele diz (Examinei esta campanha nos últimos capítulos do meu livro Teologia para Peregrinos).

A pergunta surge, e é uma indagação muito mais ampla do que uma importância meramente acadêmica: Até que ponto o Papa Bento XVI concorda com o jovem padre Joseph Ratzinger?

A quarta e última sessão do concílio “teria de enfrentar os problemas mais difíceis, os problemas que tinham sido adiados por três anos” – a liberdade religiosa, o cristianismo e o judaísmo, e os problemas associados à produção de um tipo inteiramente novo de documento conciliar, o documento que se tornou Gaudium et Spes. “Apesar de todas as rejeições”, o texto da Constituição conservou “um otimismo progressista quase ingênuo que parecia ignorar a ambivalência de todo o progresso humano externo”.

É interessante observar que, ao discutir o Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes, ele comenta sobre a questão do celibato sacerdotal: “Em vista da escassez de sacerdotes em muitas áreas, a Igreja não pode evitar rever esta questão silenciosamente. Esquivar-se disso é impossível, em vista da responsabilidade de pregar o Evangelho dentro do contexto do nosso tempo”. Quarenta anos mais tarde, a escassez de sacerdotes atinge o nível de crise, e ainda assim Bento parece ter conseguido continuar fugindo dela.

A Paulist Press está de parabéns por reeditar essas reflexões lúcidas, perspicazes e entusiasmadas sobre as quatro sessões conciliares. Como já mencionei mais de uma vez, eles levantam muito fortemente a questão da relação entre as opiniões do jovem peritus e àquelas do atual Papa.

Na sua introdução, o padre jesuíta Thomas Rausch afirma que “os próprios pontos de vista de Ratzinger, com algumas exceções, permaneceram notavelmente coerentes ao longo dos anos”. Sobre o qual, duas observações. A grande exceção, que ele menciona, é a liturgia. No entanto, não vejo nenhuma incoerência entre o entusiasmo de Ratzinger à Constituição sobre a Liturgia, por um lado, e, por outro lado, a sua avaliação cada vez mais crítica do que aconteceu na liturgia nas últimas décadas.

Em segundo lugar, algumas coisas se sobressaem mais fortemente deste livro que o apoio incondicional de Ratzinger para o projeto central do concílio: a saber, a elaboração e implementação da doutrina da colegialidade episcopal como a estrutura para, em suas palavras, o “fortalecimento do poder episcopal há muito tempo desejado”. Bento é obcecado pela importância de conciliar os cismáticos lefebvristas com a Igreja. É essa obsessão, creio eu, que explica dois de seus empreendimentos mais extraordinários: o motu proprio permitindo o uso geral do Missal de 1962 e a Constituição Apostólica que estabelece “ordinariatos” para anglicanos descontentes. O primeiro foi feito sem consultar os bispos, e contra os pontos de vista de um número considerável deles. O segundo foi ainda mais espantoso: uma das grandes inovações estruturais na Igreja foi promulgada sem consultar os outros bispos da Igreja Católica (para não falar de membros seniores da Comunhão Anglicana).

Parece-me que não se pode dizer que um Papa que tem capacidade para fazer essas coisas, da maneira que foram feitas, tenha um pingo de imaginação verdadeiramente colegial. Precisamos lembrar que, entre o jovem teólogo, Joseph Ratzinger, tão crítico da cúria romana e tão entusiasmado com a restauração do poder episcopal, e o Papa Bento XVI, ergue-se o Cardeal Ratzinger, há 24 anos o chefe da mais poderosa das congregações da Cúria.

[Nicholas Lash é professor emérito de teologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.]

Visto em: Fratres in Unum

sábado, 19 de junho de 2010

Discurso do Papa Bento XVI aos bispos do Espírito Santo e Minas Gerais.

Queridos Irmãos no Episcopado,

«chamados a ser santos, junto com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Para vós, graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (1 Cor 1, 2-3). Com estas palavras, acolho a todos vós, amados Pastores do Regional Leste 2 em Visita ad Limina, e vos saúdo com grande afeto na consciência do laço colegial que une o Papa com os Bispos no vínculo da unidade, da caridade e da paz. Agradeço a Dom Walmor as amáveis palavras com que interpretou os vossos sentimentos de homenagem à Sé de Pedro e ilustrou os desafios e problemas que são objeto do vosso empenho a bem da grei que Deus vos confiou nos Estados do Espírito Santo e Minas Gerais.

Vejo que amais profundamente as vossas dioceses e também eu participo intimamente deste vosso amor, acompanhando-vos com a oração e a solicitude apostólica. A nossa é uma bela história com início palpável nas Bulas expedidas pelo Sucessor de Pedro para a ordenação episcopal e naquele «Eis-me aqui» proferido por cada um no início da cerimônia da sua sagração e conseqüente ingresso no Colégio dos Bispos. Dele começastes a fazer parte «em virtude da sagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a Cabeça e com os membros» (Nota Explicativa Prévia, anexa à Const. dogm. Lumen gentium), tornando-vos sucessores dos Apóstolos com a tríplice função de ensinar, santificar e governar o povo de Deus.

Enquanto mestres e doutores da fé, tendes a missão de ensinar com audácia a verdade que se deve crer e viver, apresentando-a de forma autêntica. Como vos disse em Aparecida, «a Igreja tem a grande tarefa de conservar e alimentar a fé do povo de Deus, e recordar também aos fiéis (…) que, em virtude do seu batismo, são chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 13/V/2007, 3). Ajudai, pois, os fiéis confiados aos vossos cuidados pastorais a descobrirem a alegria da fé, a alegria de serem pessoalmente amados por Deus, que entregou o seu Filho para nossa salvação. Como bem sabeis, crer consiste sobretudo em abandonar-se a este Deus que nos conhece e ama pessoalmente, aceitando a Verdade que Ele revelou em Jesus Cristo com a atitude que nos leva a ter confiança nele como revelador do Pai. Queridos irmãos, tende grande confiança na graça e sabei infundir esta confiança no vosso povo, para que a fé sempre seja guardada, defendida e transmitida na sua pureza e integridade.

Como administradores do supremo sacerdócio, haveis de procurar que a liturgia seja verdadeiramente uma epifania do mistério, isto é, expressão da natureza genuína da Igreja, que ativamente presta culto a Deus por Cristo no Espírito Santo. De todos os deveres do vosso ministério, «o mais imperioso e importante é a responsabilidade pela celebração da Eucaristia», competindo-vos «providenciar para que os fiéis tenham a possibilidade de aceder à mesa do Senhor, sobretudo ao domingo que é o dia em que a Igreja – comunidade e família dos filhos de Deus – descobre a sua peculiar identidade cristã ao redor dos presbíteros» (João Paulo II, Exort. ap. Pastores gregis, 39). O múnus de santificar que recebestes impõe-vos ainda ser promotores e animadores da oração na cidade humana, freqüentemente agitada, rumorosa e esquecida de Deus: deveis criar lugares e ocasiões de oração, onde no silêncio, na escuta de Deus, na oração pessoal e comunitária, o homem possa encontrar e fazer a experiência viva de Jesus Cristo que revela o rosto autêntico do Pai. É preciso que as paróquias e os santuários, os ambientes de educação e sofrimento, as famílias se tornem lugares de comunhão com o Senhor.

Enfim, como guias do povo cristão, deveis promover a participação de todos os fiéis na edificação da Igreja, governando com coração de servo humilde e pastor afetuoso tendo em vista a glória de Deus e a salvação das almas. Em virtude do múnus de governar, o Bispo está chamado também a julgar e disciplinar a vida do povo de Deus confiado aos seus cuidados pastorais, através de leis, diretrizes e sugestões, como previsto na disciplina universal da Igreja. Este direito e dever é muito importante para que a comunidade diocesana permaneça unida no seu interior e caminhe em sincera comunhão de fé, de amor e de disciplina com o Bispo de Roma e com toda a Igreja. Para isso, não vos canseis de alimentar nos fiéis o sentido de pertença à Igreja e a alegria da comunhão fraterna.

Entretanto o governo do Bispo só será pastoralmente proveitoso «se gozar do apoio duma boa credibilidade moral, que deriva da sua santidade de vida. Tal credibilidade predisporá as mentes para acolherem o Evangelho anunciado por ele na sua Igreja e também as normas que ele estabelecer para o bem do povo de Deus» (Ibid., 43). Por isso, plasmado interiormente pelo Espírito Santo, cada um de vós faça-se «tudo para todos» (cf. 1 Cor 9, 22), propondo a verdade da fé, celebrando os sacramentos da nossa santificação e testemunhando a caridade do Senhor. Acolhei de coração aberto quantos batem à vossa porta: aconselhai-os, confortai-os e apoiai-os no caminho de Deus, procurando guiar a todos para aquela unidade na fé e no amor da qual, por vontade do Senhor, deveis ser princípio e fundamento visível nas vossas dioceses (cf. Const. dogm. Lumen gentium, 23).

Queridos Irmãos no Episcopado! Ao concluir este nosso encontro, desejo renovar a cada um de vós os meus sentimentos de gratidão pelo serviço que prestais à Igreja com viva dedicação e amor. Por intercessão da Virgem Maria, «exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens» (Ibid., 65), invoco de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, sobre o vosso ministério a abundância dos dons e consolações celestes e concedo-vos, extensiva aos sacerdotes e diáconos, aos consagrados e consagradas, aos seminaristas e aos fiéis leigos das vossas comunidades diocesanas, uma particular Bênção Apostólica.

Discurso do Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos bispos da Conferência Episcopal Brasileira do Regional Leste 2 em visita Ad Limina Apostolorum – 19 de junho de 2010.

Visto em: Fratres in Unum

quinta-feira, 10 de junho de 2010

R.I.P. Professor Orlando


Faleceu hoje (09-06-10), vítima de infarto, o Professor Orlando Fedeli, presidente da associação cultural Montfort. Que o Senhor possa dar-lhe descanso eterno. Oremos pelo professor Fedeli.

Requiem aeternam dona ei, Domine,
et lux perpetua luceat ei.

Requiescat in Pace,
Amen.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

Queridos irmãos e irmãs!

O sacerdócio do Novo Testamento está intimamente ligado à Eucaristia. Hoje, Solenidade de Corpus Christi e próximos do fim do Ano Sacerdotal, somos convidados a meditar sobre a relação entre a Eucaristia e o sacerdócio de Cristo. … Ela é a alegria da comunidade, a alegria de toda a Igreja, que, contemplando e adorando o Santíssimo Sacramento, reconhece a presença real e permanente de Jesus, o eterno Sumo Sacerdote.

…


A primeira coisa que deve sempre ser tida em mente é que Jesus não foi um sacerdote conforme a tradição judaica. Sua família não era sacerdotal. Ele não pertencia aos descendentes de Aarão, mas de Judá, e, portanto, estava excluído do sacerdócio. A pessoa e a atividade de Jesus de Nazaré não se encontram no modo dos antigos sacerdotes, mas sim no dos profetas – e nesta linha, distanciou-se de uma concepção ritual de religião, criticando a abordagem que dava mais valor aos preceitos humanos ligados à pureza ritual do que à observância dos mandamentos de Deus, isto é, àquele amor a Deus e ao próximo que “vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios” (Marcos 12:33).

Mesmo dentro do Templo de Jerusalém, lugar sagrado por excelência, Jesus cumpriu um gesto puramente profético quando expulsa os cambistas e vendedores de animais, coisas que eram usadas para os tradicionais oferecimentos de sacrifícios. Portanto, Jesus não é reconhecido como um Messias sacerdotal, mas profético e real. Mesmo sua morte, que os cristãos corretamente chamam “sacrifício”, não tem nada dos antigos sacrifícios. Na realidade, foi o oposto: uma morte das mais infamantes, por crucifixão, que ocorreu fora dos muros de Jerusalém.

Em que sentido, então, Jesus é um sacerdote? A Eucaristia nos dá a resposta precisa. Podemos começar, novamente, daquelas palavras simples que descrevem Melquisedec: “Ele ofereceu pão e vinho” (Gênesis 14:18). É o que fez Jesus na última ceia: ofereceu pão e vinho, e neste gesto resumiu a Si mesmo e toda sua missão. Naquele ato, na oração que o precede e nas palavras que o acompanham, está todo o sentido do mistério de Cristo, como a Epístola aos Hebreus expressa em um passo decisivo que deve ser mencionado: “Nos dias de Sua vida terrena,” escreve o autor referindo-se a Jesus, “Ele ofereceu orações e súplicas, com fortes gritos e lágrimas a Deus que poderia salvá-Lo da morte, e, por causa de seu completo abandono a Deus, Suas orações foram ouvidas e respondidas. Embora ele fosse filho, aprendeu a obediência daquilo que sofreu e foi designado por Deus para ser sacerdote da ordem de Melquisedec”(5.8 to 10). Neste texto, que claramente alude à agonia espiritual do Getsemani, a paixão de Cristo é apresentada como uma oração e uma oferta. Jesus encara Sua “hora”, que leva à morte em uma cruz, imerso em profunda oração, que consiste na união de Sua própria vontade com o Pai. Esta vontade dupla e única é uma vontade de amor. Vivida nesta oração, a trágica prova que Jesus enfrenta é transformada em oferta, um sacrifício vivo.

A Carta aos Hebreus diz que Jesus “foi ouvido”. Em que sentido? No sentido que Deus Pai O libertou da morte e O ressuscitou. Foi ouvido precisamente por causa de Seu completo abandono à vontade do Pai: o plano de amor de Deus pôde perfeitamente ser cumprido em Jesus, que, tendo obedecido mesmo até a morte numa cruz, tornou-se “causa de salvação” a todos aqueles que Lhe obedecem. Ele se torna o Sumo Sacerdote, tendo tomado sobre Si todos os pecados do mundo, como o “Cordeiro de Deus”. É o Pai que dá este sacerdócio a Ele no próprio momento em que Jesus atravessa a passagem de sua morte e ressurreição. Não é um sacerdócio segundo a ordem da Lei Mosaica (cf. Lev. 8-9), mas “segundo a ordem de Melquisedec” – segundo uma ordem profética, dependente apenas de seu relacionamento singular com Deus.

Retornemos à expressão da Carta aos Hebreus que diz: “Sendo filho, aprendeu a obediência daquilo que sofreu”. O sacerdócio de Cristo envolve sofrimento. Jesus realmente sofreu, e assim o fez por nós. Ele era o Filho e não precisava aprender a obediência a Deus, mas nós precisamos: nós sempre precisamos e sempre precisaremos.

Por esta razão, o Filho assumiu nossa humanidade e Se permitiu ser “educado” na prova do sofrimento, permitiu-Se ser transformado por ele, como o grão trigo que, a fim de dar frutos, deve morrer no solo. Através deste processo, Jesus foi “feito perfeito”, em grego teleiotheis. Devemos nos deter sobre este termo porque ele é muito significante. Ele mostra a culminação de uma jornada, que é precisamente o caminho de educação e transformação do Filho de Deus mediante o sofrimento, mediante uma dolorosa paixão. É graças a esta transformação que Jesus Cristo tornou-Se “sumo sacerdote” e pôde salvar a todos que Nele confiarem. O termo teleiotheis, corretamente traduzido como “feito perfeito”, pertence a uma raiz verbal que, na versão grega do Pentateuco, i.e., os cinco primeiros livros da Bíblia, é sempre usada para indicar a consagração dos sacerdotes antigos. Esta descoberta é muito importante porque ela nos conta que a paixão foi para Jesus como que uma consagração sacerdotal. Ele não era um sacerdote segundo a Lei, mas tornou-Se um sacerdote existencialmente em Sua páscoa de paixão, morte e ressurreição: oferecendo-Se em expiação – e o Pai, exaltando-O sobre todas as criaturas, constituindo-O Mediador universal da salvação.

Retornamos agora, em nossa meditação, à Eucaristia, que logo estará no centro de nossa assembléia litúrgica e posterior procissão solene. Nela, Jesus antecipou seu sacrifício, não um sacrifício ritual, mas um sacrifício pessoal. Jesus, na Última Ceia, age movido por seu “espírito eterno” com o qual Ele depois oferecerá a Si mesmo na Cruz (cf. Heb. 9:14). Dando graças e louvando, Jesus transforma o pão e vinho. É o amor Divino que transforma: o amor com o qual Jesus aceita em antecipação o ato de dar-Se inteiramente a nós. Este amor não mais do que o Espírito Santo, que Espírito do Pai e do Filho, que consagra o pão e o vinho e muda sua substância no Corpo e Sangue do Senhor, tornando presente no Sacramento o mesmo sacrifício que ocorre cruelmente na Cruz.

Podemos, portanto, concluir que Cristo é o sacerdote verdadeiro e eficaz, porque é cheio da força do Espírito Santo, cheio da plenitude do amor de Deus, e isso, precisamente “na noite em que foi traído”, precisamente na “hora da escuridão” (cf. Lc 22:53). É esse poder divino, o mesmo poder que realizou a Encarnação do Verbo, que transforma a violência extrema e a injustiça extrema em um supremo ato de amor e justiça.

Este é o trabalho do sacerdócio de Cristo, que a Igreja herdou e carregou através da história, na forma dupla do sacerdócio comum dos batizados e aquele dos ministros ordenados, a fim de transformar o mundo com o amor de Deus. Todos, padres e igualmente leigos, são alimentados pela mesma Eucaristia, nós todos nos prostramos em adoração, pois na Eucaristia está presente nosso Mestre e Senhor, o verdadeiro Corpo de Cristo, Sacerdote e Vítima, a Salvação do mundo.

Vinde, exultemos com hinos de alegria! Vinde, adoremos a Ele! Amém.

Bento XVI

Homilia da Missa de Corpus Christi

Fonte: Rorate-Caeli

Visto em: Fratres in Unum

Lauda, Sion, Salvatorem.


Quando o Papa Urbano IV (1261 – 1264) estabeleceu pela primeira vez a Festa de Corpus Christi, ele pediu a Santo Tomás de Aquino (1225-1274) que compusesse seus hinos. Este é um dos cinco belos hinos que Santo Tomás compôs em honra a Jesus no Santíssimo Sacramento. Além de ‘Lauda Sion’, Santo Tomás redigiu ‘Adoro Te Devote’, ‘Pange Lingua’, ‘Sacris Sollemnis’ e ‘Verbum Supernum’. ‘Lauda Sion’ é a sequência antes do Evangelho no Corpus Christi. Os últimos dois versos incluem o conhecido ‘Bone pastor, panis vere’.

Fonte: Preces Latinae

LAUDA Sion Salvatorem,
lauda ducem et pastorem,
in hymnis et canticis.
Quantum potes, tantum aude:
quia maior omni laude,
nec laudare sufficis.
Louva, Sião, o Salvador,
o teu pastor e o teu guia,
com hinos e com cantares.
Louva-O o mais que puderes:
supera todo o louvor,
nem bastante O louvarás!
Laudis thema specialis,
panis vivus et vitalis
hodie proponitur.
Quem in sacrae mensa cenae,
turbae fratrum duodenae
datum non ambigitur.
Não há mais sublime assunto,
que nos possa ser proposto:
o pão vivo que dá a vida!
O mesmo que já foi dado,
ao grupo dos doze Apóstolos,
quando da última Ceia!
Sit laus plena, sit sonora,
sit iucunda, sit decora
mentis iubilatio.
Dies enim solemnis agitur,
in qua mensae prima recolitur
huius institutio.
Seja perfeito e sonoro
este louvor e alegria
que brota das nossas almas:
Porque é solene este dia
que nos lembra a instituição
deste banquete divino!
In hac mensa novi Regis,
novum Pascha novae legis,
phase vetus terminat.
Vetustatem novitas,
umbram fugat veritas,
noctem lux eliminat.
Nesta mesa de um Rei novo,
a Páscoa da Nova Lei
fez findar a Páscoa antiga,
Suplantando os velhos ritos:
Dissipa a verdade as sombras como a luz dissipa a noite!
Quod in coena Christus gessit,
faciendum hoc expressit
in sui memoriam.
Docti sacris institutis,
panem, vinum in salutis
consecramus hostiam.
O que Cristo fez na Ceia,
ordenou que se fizesse
em memória de Si mesmo:
Com tão divinas lições,
realiza o sacrifício,
consagrando o pão e o vinho.
Dogma datur christianis,
quod in carnem transit panis,
et vinum in sanguinem.
Quod non capis, quod non vides,
animosa firmat fides,
praeter rerum ordinem.
É um dogma p’ra os cristãos:
Converte-se o pão em Carne,
e o vinho passa a ser Sangue!
Não se vê nem compreende;
mas a fé viva garante-o
p’ra além das leis naturais!
Sub diversis speciebus,
signis tantum, et non rebus,
latent res eximiae.
Caro cibus, sanguis potus:
manet tamen Christus totus
sub utraque specie.
Sob aparências diversas,
simples sinais e não coisas,
grandes mistérios se ocultam!
Carne é o pão e vinho é o Sangue;
mas sob as duas espécies
palpita Jesus inteiro!
A sumente non concisus,
non confractus, non divisus:
integer accipitur.
Sumit unus, sumunt mille:
quantum isti, tantum ille:
nec sumptus consumitur.
Não se parte nem divide
por aqueles que O recebem:
É tomado tal qual é!
Quer sejam mil, quer um só,
todos recebem o mesmo,
sem por isso O consumir!
Sumunt boni, sumunt mali:
sorte tamen inaequali,
vitae vel interitus.
Mors est malis, vita bonis:
vide paris sumptionis
quam sit dispar exitus.
Recebem-No os bons e os maus,
mas com efeitos diversos:
para a vida ou para a morte!
Morte aos maus e vida aos bons:
Quão diversos os efeitos
do mesmíssimo alimento!
Fracto demum sacramento,
ne vacilles, sed memento
tantum esse sub fragmento,
quantum toto tegitur.
Nulla rei fit scissura:
signi tantum fit fractura,
qua nec status, nec statura
signati minuitur.
Quando a hóstia é dividida,
não vacile a tua fé,
pois sob cada fragmento
está tanto como o todo!
Não se corta a coisa em si,
mas a aparência do pão,
sem que em nada se lhe altere,
ou o estado, ou a estatura!
Ecce Panis Angelorum,
factus cibus viatorum:
vere panis filiorum,
non mittendus canibus.
In figuris praesignatur,
cum Isaac immolatur,
agnus Paschae deputatur,
datur manna patribus.
Eis aqui o pão dos anjos,
dado em viático aos homens;
verdadeiro pão dos filhos,
nunca jamais para os cães!
Foi já predito em figuras:
Na imolação de Isaac,
e o Cordeiro pascal;
e no maná do deserto…
Bone pastor, panis vere,
Iesu, nostri miserere:
Tu nos pasce, nos tuere,
Tu nos bona fac videre
in terra viventium.
Tu qui cuncta scis et vales,
qui nos pascis hic mortales:
tuos ibi commensales,
coheredes et sodales
fac sanctorum civium.
Amen. Alleluia.
Ó bom Pastor, pão autêntico!
Ó Jesus, que olhais por nós!
Alimentai-nos! Valei-nos!
Dai-nos ver o bem supremo,
na Terra dos que já vivem!
Tudo sabeis e podeis,
Vós que nos alimentais:
Fazei-nos vossos convivas,
herdeiros e companheiros,
na pátria de vossos santos!
Amen. Alleluia.

Visto em: Fratres in Unum