quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Antífonas do Ó

A partir de hoje até o dia 23 de dezembro, a Igreja reza as antífonas do Advento, também conhecidas como Antífonas do Ó. Seja no canto solene ou na recitação, estas antífonas precedem e acompanham o Magnificat no Ofício de Vésperas.

Segundo o Pe. William Saunders:

“A origem exata das ‘Antífonas do O’ não é conhecida. Boécio (480-524) faz uma leve referência a elas, sugerindo assim sua presença já naquele tempo. Na abadia beneditina de Fleury (atual Saint-Benoit-sur-Loire), estas antífonas eram recitadas pelo abade e outros líderes da abadia segundo uma ordem de precedência decrescente e se dava, então, um presente para cada membro da comunidade. Por volta do oitavo século, elas já são usadas nas celebrações litúrgicas em Roma. O uso das ‘Antífonas do O’ era tão corrente nos mosteiros que as frases, ‘Mantenha seu O’ e ‘As grandes Antífonas do Ó’, eram de linguagem comum. Pode-se, portanto, concluir que de algum modo as ‘Antífonas do Ó’ fazem parte de nossa tradição litúrgica desde a Igreja primitiva.

A importância das ‘Antífonas do Ó’ é dupla. Cada uma delas destaca um título do Messias: O Sapientia (Ó Sabedoria), O Adonai (Ó Adonai), O Radix Jesse (Ó Raiz de Jessé), O Clavis David (Ó Chave de Davi), O Oriens (Ó Sol nascente), O Rex Gentium (Ó Rei das Nações) e O Emmanuel (Ó Emanuel). E ainda, cada uma se refere à profecia de Isaías sobre a vinda do Messias.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Mons. Klaus Gamber: “a nova teologia (liberal) foi a maior força por detrás da reforma litúrgica”.


…quando Lutero e seus seguidores primeiramente descartaram o Cânon da Missa, tal mudança não era comumente notada pelo povo pois, como sabemos, o padre dizia o cânon em voz baixa, como uma oração privada. Mas Lutero propositalmente não dispensava a elevação da Hóstia e do Cálice, ao menos não inicialmente, porque o povo notaria a mudança. Ademais, nas maiores igrejas luteranas, o latim continuou a ser usado, assim como o canto gregoriano. Hinos alemães existiam antes da Reforma e às vezes eram cantados durante a liturgia, logo não era uma grande mudança. Mais radical do que qualquer mudança litúrgica introduzida por Lutero, ao menos no que concerne o rito, foi a reorganização de nossa própria liturgia – acima de tudo, as mudanças fundamentais que foram feitas na liturgia da Missa. Isso também demonstra muito menos compreensão dos laços emocionais que os fiéis tinham com o rito litúrgico tradicional.

Neste ponto, não é inteiramente claro a extensão com que estas mudanças, de fato, influenciaram as considerações dogmáticas – como foi no caso de Lutero…

O aspecto realmente trágico deste desenvolvimento é que muitos dos envolvidos na elaboração dos novos textos litúrgicos, dentre os quais especialmente bispos e padres que vieram do Movimento da Juventude Católica [Jugendbewegung], estavam atuando de boa Fé, e simplesmente falharam em reconhecer os elementos negativos que eram parte da nova liturgia, ou não os reconheceram corretamente. Para eles, a nova liturgia expressava o cumprimento de todas as suas esperanças e aspirações passadas pelas quais eles esperaram por muito tempo.

Uma coisa é certa: a nova teologia (liberal) foi a maior força por detrás da reforma litúrgica. Todavia, afirmar, como às vezes é feito, que o Novus Ordo Missae é “inválido”, seria ir muito além deste argumento. O que nós podemos dizer é que desde que a reforma litúrgica foi introduzida o número de missas inválidas certamente cresceu.

Nem as persistentes súplicas de distintos cardeais, nem sérios pontos dogmáticos salientados pela nova liturgia, nem apelos urgentes por todo o mundo para que não se fizesse obrigatório o novo missal, puderam parar o Papa Paulo VI – uma clara indicação de seu próprio e forte endosso pessoal. Mesmo a ameaça de um novo cisma – o caso Lefebvre – não pôde movê-lo a ter o Rito Romano tradicional como, no mínimo, coexistente com o novo rito – um simples gesto de pluralismo e de inclusão que em nossos dias e tempos teria sido, certamente, a coisa prudente a ser feita.

Monsenhor Klaus Gamber, Die Reform der römischen Liturgie.

Promulgação de decretos da Congregação para as Causas dos Santos

Hoje, 19 de dezembro, o Santo Padre Bento XVI recebeu em audiência privada S. Exa. Dom Angelo Amato, SDB, Prefeito da Congregação para a Causas dos Santos. No curso da audiência, o Santo Padre autorizou a Congregação a promulgar os Decretos relativos a:

- un miracolo, attribuito all'intercessione del Beato Stanislao Sołtys, chiamato Kazimierczyk, Sacerdote professo dell'Ordine dei Canonici Regolari Lateranensi; nato il 27 settembre 1433 a Kazimierz (Polonia) ed ivi morto il 3 maggio 1489;

- un miracolo, attribuito all'intercessione del Beato Andrea Bessette (al secolo: Alfredo), Religioso professo della Congregazione di Santa Croce; nato a Saint-Grégoire d'Iberville (Canada) il 9 agosto 1845 e morto a Montréal (Canada) il 6 gennaio 1937;

- un miracolo, attribuito all'intercessione della Beata Maria della Croce MacKillop (al secolo: Maria Elena), Fondatrice della Congregazione delle Suore di San Giuseppe del Sacro Cuore; nata il 15 gennaio 1842 a Fitzroy (Australia) e morta l'8 agosto 1909 a Sydney (Australia);

- un miracolo, attribuito all'intercessione della Beata Giulia Salzano, Fondatrice della Congregazione delle Suore Catechiste del Sacro Cuore di Gesù; nata il 13 ottobre 1846 a Santa Maria Capua Vetere (Italia) e morta il 17 maggio 1929 a Casoria (Italia);

- un miracolo, attribuito all'intercessione della Beata Battista da Varano (al secolo: Camilla), Monaca professa dell'Ordine di Santa Chiara e Fondatrice del Monastero di Santa Chiara nella città di Camerino; nata il 9 aprile 1458 a Camerino (Italia) ed ivi morta il 31 maggio 1524;

[os cinco beatos acima elencados serão proximamente canonizados]

- un miracolo, attribuito all'intercessione del Venerabile Servo di Dio Giuseppe Tous y Soler, Sacerdote professo dell'Ordine dei Frati Minori Cappuccini e Fondatore della Congregazione delle Suore Cappuccine della Madre del Divin Pastore; nato il 31 marzo 1811 a Igualada (Spagna) e morto il 27 febbraio 1871 a Barcellona (Spagna);

- un miracolo, attribuito all'intercessione del Venerabile Servo di Dio Leopoldo da Alpandeire Sánchez Márquez (al secolo: Francesco), Laico professo dell'Ordine dei Frati Minori Cappuccini; nato il 24 luglio 1866 ad Alpandeire (Spagna) e morto il 9 febbraio 1956 a Granada (Spagna);

- un miracolo, attribuito all'intercessione del Venerabile Servo di Dio Emanuele Lozano Garrido, Laico; nato il 9 agosto 1920 a Linares (Spagna) ed ivi morto il 3 novembre 1971;

- un miracolo, attribuito all'intercessione della Venerabile Serva di Dio Teresa Manganiello, Laica, del Terz'Ordine di San Francesco; nata a Montefusco (Italia) il 1 gennaio 1849 ed ivi morta il 4 novembre 1876;

- un miracolo, attribuito all'intercessione della Venerabile Serva di Dio Chiara Badano, Laica; nata a Sassello (Italia) il 29 ottobre 1971 ed ivi morta il 7 ottobre 1990;

[os 5 veneráveis servos de Deus acima elencados serão beatificados proximamente]

- il martirio del Servo di Dio Giorgio Popiełuszko, Sacerdote diocesano; nato il 14 settembre 1947 ad Okopy Suchowola (Polonia) e ucciso in odio alla Fede il 20 ottobre 1984 nei pressi di Włocławek (Polonia); [sua beatificação depende do reconhecimento de um milagre que lhe seja atribuído]

- le virtù eroiche del Beato Giacomo Illirico da Bitetto, Laico professo dell'Ordine dei Frati Minori; nato nel 1400 a Zara (Dalmazia) e morto intorno all'anno 1496 a Bitetto (Italia); [beatificado em 1700, a causa de sua canonização foi reaberta em 1986; um milagre atribuído a sua intercessão já está sob avaliação, ao fim da qual poderá ser canonizado]

- as virtudes heróicas do Servo de Deus PIO XII (Eugenio Pacelli), Sumo Pontífice; nascido em Roma em 2 de março de 1876 e morto em Castelgandolfo em 9 de outubro de 1958;


- as virtudes heróicas do Servo de Deus JOÃO PAULO II (Karol Wojtyła) Sumo Pontífice; nascido em 18 de maio de 1920 em Wadowice (Polônia) e morto em Roma em 2 de abril de 2005;


- le virtù eroiche del Servo di Dio Luigi Brisson, Sacerdote e Fondatore degli Oblati e delle Oblate di San Francesco di Sales; nato il 23 giugno 1817 a Plancy (Francia) ed ivi morto il 2 febbraio 1908;

- le virtù eroiche del Servo di Dio Giuseppe Quadrio, Sacerdote professo della Società Salesiana di San Giovanni Bosco; nato il 28 novembre 1921 a Vervio (Italia) e morto a Torino (Italia) il 23 ottobre 1963;

- le virtù eroiche della Serva di Dio Maria Ward (al secolo: Giovanna), Fondatrice dell'Istituto delle Suore della Beata Maria Vergine, oggi Congregazione di Gesù; nata a Mulwith (Inghilterra) il 23 gennaio 1585 e morta a Hewarth (Inghilterra) il 30 gennaio 1645;

- le virtù eroiche della Serva di Dio Antonia Maria Verna, Fondatrice dell'Istituto delle Suore della Carità dell'Immacolata Concezione dette d'Ivrea; nata a Pasquaro di Rivarolo (Italia) il 12 giugno 1773 ed ivi morta il 25 dicembre 1838;

- le virtù eroiche della Serva di Dio Maria Chiara Serafina di Gesù Farolfi (al secolo: Francesca), Fondatrice delle Suore Clarisse Francescane Missionarie del Ss.mo Sacramento; nata il 7 ottobre 1853 a Tossignano (Italia) e morta il 18 giugno 1917 a Badia di Bertinoro (Italia);

- le virtù eroiche della Serva di Dio Enrica Alfieri (al secolo: Maria Angela), Suora professa della Congregazione delle Suore della Carità di Santa Giovanna Antida Thouret; nata il 23 febbraio 1891 a Borgovercelli (Italia) e morta a Milano (Italia) il 23 novembre 1951;

- le virtù eroiche del Servo di Dio Giunio Tinarelli, Laico, Socio della Pia Unione Primaria Silenziosi Operai della Croce, nato a Terni (Italia) il 27 maggio 1912 ed ivi morto il 14 gennaio 1956.

[a beatificação dos 9 Servos de Deus acima elencados fica a depender do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão]
Fonte: Santa Sé

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Venerável João Paulo II - decreto deve ser assinado no sábado

O Santo Padre Bento XVI declarará João Paulo II "Venerável". O título significa que a Igreja reconhece que o falecido pontífice viveu as virtudes cristãs em grau heróico. Bento XVI deverá assinar o decreto no próximo sábado.

Para a beatificação faltará a certificação de um milagre obtido pela intercessão de João Paulo II.



O Sapientia




Ó, Sabedoria, que saistes da boca do Altíssimo,
e atingis até os confins de todo o universo
e com força e suavidade governais o mundo inteiro:
Oh, vinde ensinar-nos o caminho da prudência!

As "Quatro Têmporas"

O BRILHO DAS QUATRO TÊMPORAS

Michael P. Foley

As Quatro Estações

As Quatro Têmporas, que caem na quarta-feira, sexta-feira e sábado da mesma semana, ocorrem em conjunção com as quatro estações do ano. O outono [primavera no hemisfério sul, n.d.t.] traz as Têmporas de setembro, também conhecidas como as Têmporas de São Miguel devido a sua proximidade coma Festa de São Miguel em 29 de setembro. O inverno [verão no hemisfério sul, n.d.t.], por outro lado, traz as Têmporas de dezembro, durante a terceira semana do Advento e a primavera [outono no hemisfério sul, n.d.t.] traz as Têmporas da Quaresma, após o primeiro domingo da Quaresma. Finalmente, o verão [inverno no hemisfério sul, n.d.t.] anuncia as Têmporas de Pentecostes, que ocorrem dentro da Oitava de Pentecostes.

No Missal de 1962, as Têmporas eram observadas como férias de segunda classe, dias feriais de especial importância que se sobrepunham inclusive a certas festas de santos. Cada dia tem sua Missa própria, todas as quais são bastante antigas. Uma prova de sua antiguidade é que elas são uns dos poucos dias no rito gregoriano (como o Missal de 1962 agora vem sendo chamado) que têm cinco leituras do Antigo Testamento acompanhadas da leitura da Epístola, uma disposição antiga de fato.

Jejum e abstinência parcial durante as Têmporas eram também observados pelos fiéis desde tempos imemoriais até a década de 60. É esta associação de jejum e penitência com as Têmporas que levou alguns a pensarem que seu nome peculiar tivesse algo a ver com cinzas ardentes, ou brasas. Mas o nome em inglês [ember] deriva-se provavelmente de seu título latino, as Quatuor Tempora ou “Quatro Estações”.

Apostólicas e Universais

A história das Têmporas leva-nos às origens mesmas do Cristianismo. O Antigo Testamento prescreve um jejum quádruplo como parte de sua consagração do ano em curso a Deus (Zac 8, 19). Além destas observâncias sazonais, judeus piedosos na Palestina do tempo de Jesus jejuavam toda segunda e quinta – daí a vanglória do fariseu sobre o jejuar duas vezes por semana na parábola envolvendo um deles e o publicano (Lc 18, 12).

Os primeiros cristãos corrigiram ambos os costumes. A Didache, obra tão antiga que pode inclusive ser datada antes de alguns livros do Novo Testamento, conta-nos que os cristãos palestinos no primeiro século jejuavam todas as quartas e sextas: quartas porque é o dia em que Jesus foi traído e sextas porque é o dia em que Ele foi crucificado. O jejum de quartas e sextas de tal forma fizeram parte da vida cristã que uma palavra em gaélico, Didaoirn, significa literalmente “o dia entre os jejuns”.

No século terceiro, os cristãos em Roma começaram a destinar alguns destes dias à oração sazonal, em parte como imitação do costume judeu e em parte como resposta às festas pagãs que ocorriam por volta da mesma época. Assim nasceram as Têmporas. E depois que o jejum semanal tornou-se menos frequente, foram as Têmporas que permaneceram como testemunho evidente de um costume que remonta aos próprios Apóstolos. Ademais, ao modificando-se os dois jejuns judeus, as Têmporas encarnam a declaração de Cristo de que Ele não veio para abolir a Lei mas para cumpri-la (Mt 5, 17).

Proveitosamente Naturais

Este cumprimento da Lei é crucial porque ensina-nos algo fundamental sobre Deus, Seu plano redentor para nós e a natureza do universo. Tanto no caso dos jejuns sazonais dos judeus quanto das Têmporas dos cristãos, somos chamados a considerar a maravilha das estações naturais e sua relação com o Criador. Pode-se dizer, por exemplo, que as quatro estações indicam individualmente a felicidade do Céu, onde há “a beleza da primavera, o brilho do verão, a abundância do outono e o repouso do inverno”.

Isto é significativo porque as Têmporas são o único tempo no calendário da Igreja onde a natureza qua natureza é destacada e reconhecida. Certamente o ano litúrgico como um todo pressupõe o ritmo anual da natureza (a Páscoa coincide com o equinócio de primavera, o Natal com o solstício do inverno, etc. [no hemisfério norte, n.d.t.]), mas aqui nós não celebramos os fenômenos naturais em si, mas os mistérios sobrenaturais que eles evocam. As Rogações comemoram a natureza, mas principalmente à luz de seu significado agrícola (ou seja, em relação com seu cultivo pelo homem) e não em seus próprios termos, por assim dizer.

As Têmporas, portanto, destacam-se como os únicos dias nas estações sobrenaturais da Igreja que comemoram as estações naturais da terra. Isto é apropriado porque, uma vez que o ano litúrgico renova anualmente nossa iniciação no mistério da redenção, ele deve fazer alguma menção especial à própria coisa que a graça aperfeiçoa.

Caracteristicamente Romanas

Mas e o sábado? A apropriação romana do jejum semanal evoluiu acrescentando o sábado como extensão do jejum de sexta-feira. E durante as Têmporas, eram realizadas uma Missa especial e uma procissão para a Basílica de São Pedro, com a congregação sendo convidada a “ficar em vigília com Pedro”. Sábado é um dia apropriado não somente para uma vigília, mas como um dia de penitência, quando nosso Senhor “jazia no sepulcro, e os Apóstolos estavam com o coração entristecido e em grande pesar”. A propósito, foi este costume que deu origem ao provérbio: “quando em Roma, faça como os romanos”. Segundo a estória, quando Santo Agostinho e Santa Mônica perguntaram a Santo Ambrósio de Milão se eles deviam obedecer aos jejuns semanais de Roma ou de Milão (que não incluía os sábados), Ambrósio respondeu: “quando eu estou aqui, eu não jejuo aos sábados, quando estou em Roma, jejuo”.

Solidariedade entre clérigos e leigos

Outro costume romano, instituído pelo Papa Gelásio em 494, é usar os sábados da Têmporas como dia para se conferir as Ordens Sagradas. A tradição apostólica prescrevia que as ordenações fossem precedidas por jejum e oração (cf. At 13, 3), e assim era bastante razoável situar as ordenações ao final deste período de jejum. Isto permitia à comunidade inteira unir-se aos candidatos no jejum e na oração pela bênção de Deus para sua vocação, e não apenas a comunidade desta ou daquela diocese, mas de todo o mundo.

Orações Pessoais

Além de comemorar as estações da natureza, cada uma das quatro Têmporas assume o caráter do tempo litúrgico em que está situada. As Têmporas do Advento, por exemplo, celebram a Anunciação e a Visitação, as únicas vezes durante o Advento, no Missal de 1962, em que isto é feito explicitamente. As Têmporas da Quaresma permite-nos ligar a estação da primavera [no hemisfério norte, n.d.t.], quando a semente deve morrer para produzir nova vida, à mortificação quaresmal de nossa carne. As Têmporas de Pentecostes, curiosamente, encontram-nos jejuando durante a Oitava de Pentecostes, ensinando-nos que existe um “jejum alegre”. As Têmporas de Outono [no hemisfério norte, n.d.t.] são o único tempo em que o calendário romano ecoa a Festa dos Tabernáculos e o Dia do Perdão dos judeus, duas comemorações que nos ensinam muito sobre nossa peregrinação terrena e sobre o sumo-sacerdócio de Cristo.

As Têmporas também nos oferecem a ocasião de um exame trimestral de nossa alma. O beato Tiago de Varazze (+ 1298) lista oito razões pelas quais nós devemos jejuar durante as Têmporas, a maioria delas relacionada à nossa luta pessoal contra o vício. O verão, por exemplo, que é quente e seco, é análogo ao “fogo e ardor da avareza”, enquanto o outono é frio e seco, como o orgulho. Tiago faz ainda um trabalho cativante ao coordenar as Têmporas com os quatro temperamentos: a primavera é sanguínea, o verão é colérico, o outono é melancólico e o inverno é fleumático. Não espanta que as Têmporas tenham se tornado tempos de retiro espiritual (não diferente de nossos modernos retiros), e que o folclore na Europa cresceu em torno deles, afirmando seu caráter especial.

Até o Extremo Oriente foi afetado pelas Têmporas. No sexto século, quando os missionários espanhóis e portugueses estabeleceram-se em Nagasaki, Japão, eles procuraram fazer refeições saborosas sem carne para as Têmporas e começaram a fritar camarões. A ideia conquistou os japoneses, que aplicaram o processo ao um diferente número de pratos do mar e vegetais. Eles chamam esta deliciosa comida – já adivinharam? – “tempura”, de Quatuor Tempora.

Têmporas Moribundas

Embora as Têmporas tenham permanecido estabelecidas no calendário universal como obrigatórias (assim como o jejum que a acompanha), sua influência irradiante sobre outras áreas da vida por fim diminuiu. No século vinte, as ordenações já não eram exclusivamente programadas para os sábados das Têmporas e seu papel como “exames espirituais” foi gradualmente esquecido. Os textos do Vaticano II poderiam ter feito muito para renovar as Têmporas. A Constituição sobre a Sagrada Liturgia determina que os elementos litúrgicos “que sofreram os prejuízos dos tempos sejam agora restaurados conforme a antiga tradição dos Santos Padres” [“restituantur vero ad pristinam sanctorum Patrum normam nonnulla quae temporum iniuria deciderunt”] (50).

Mas, ao invés, o que veio foram as Normas Gerais para o Ano Litúrgico e o Calendário (1969) da Sagrada Congregação para o Culto Divino, onde lemos:

“Nas rogações e têmporas, a prática da Igreja é oferecer orações aos Senhor pelas necessidades de todo o povo, especialmente pela produtividade da terra e pelo trabalho humano, e lhe dar graças publicamente” (45).

“De modo a adaptar as rogações e as têmporas às várias regiões... as conferências dos bispos devem dispor o tempo e o modo de sua celebração” (46).

Felizmente, as Têmporas não deveriam ser removidas do calendário mas adaptadas pelas conferências nacionais de bispos. Houve, entretanto, várias defeitos nesta disposição. Primeiro, a SCCD trata as Rogações e as Têmporas como sinônimos, o que – como dizíamos no artigo anterior – elas não são. As Têmporas não rezam, por exemplo, pela “produtividade da terra e pelo trabalho humano” no ocaso do inverno. Segundo, ao pedir uma adaptação para as várias regiões, a SCCD permite que as Têmporas assumam um número indeterminado de significados que nada têm a ver com sua natureza, tais como “paz, a unidade da Igreja, a propagação da fé, etc.” Diferentemente do desenvolvimento orgânico das Têmporas, que preservou seu significado básico enquanto assumiu outros, a diretriz de 1969 não oferece salvaguardas para garantir que os novos significados atribuídos não substituiriam o propósito mais fundamental das Têmporas. Terceiro, as conferências nacionais de bispos deviam fixar os dias das Têmporas, mas nenhuma, pelo que sei, jamais o fez.

Têmporas Mortas & Vivos Debates

Devido a esta ambiguidade e falta de direção, as Têmporas desapareceram da celebração do Novus Ordo, e no pior momento possível. Pois exatamente quando a Igreja estava deixando sua celebração litúrgica da natureza cair no esquecimento, o Ocidente estava voltando-se freneticamente para a natureza. Desde a publicação do Príncipe de Maquiavel no século XVI, a sociedade moderna tem se dedicado a uma guerra tecnológica contra a natureza de modo a aumentar o domínio e o poder do homem. A natureza não é mais uma donzela a ser cortejada (como ela tinha sido para os gregos, romanos e cristãos medievais); ela devia, a partir de então, ser violentada, submetida através dos avanços tecnológicos mais impressionantes que fariam da humanidade, nas palavras frias de Freud, “um deus protético”.

Embora existam fortes reações a esta nova atitude, a hostilidade moderna ao que foi dado por Deus apenas expandiu-se com o tempo, evoluindo de uma guerra à natureza a uma guerra à natureza humana. Nossas preocupações atuais com a engenharia genética, “mudanças” de sexo, “casamento” entre pessoas do mesmo sexo – todas tentativas de redefinir e reconfigurar a natureza – são exemplos desta escalada em curso.

O movimento ecológico que começou na década de 60 ajudou a trazer à luz as implacáveis ondas de exploração da natureza, e assim temos hoje um reconhecimento renovado das virtudes do manejo responsável e das maravilhas da terra verde, mas frágil, de Deus. Mas este mesmo movimento, que serviu de muitas formas como um renascimento saudável, é temperado de absurdos.

Geralmente os mesmos ativistas que defendem girinos em perigo são defensores da aniquilação de bebês não-nascidos. Recentemente, após aprovar suas leis abortistas, o governo socialista da Espanha introduziu uma legislação para garantir aos chimpanzés direitos legais de modo a “preservar as espécies da extinção” – isto num país sem população nativa de primatas.

Muitas vezes, o ecologismo contemporâneo é também panteísta em suas convicções, tendo como resultado que para muitos ele torna-se uma religião em si mesmo. Esta nova religião vem completa com seus próprios sacerdotes (climatologistas), seus próprios evangelhos (dados sacrossantos sobre o aumento das temperaturas e o afundamento das geleiras), seus próprios profetas (Al Gore, que infelizmente permanece bem recebido em sua própria terra) e, mais que tudo, seu próprio apocalipsismo, com os quatro cavaleiros do desmatamento, aquecimento global, esgotamento de ozônio e combustíveis tóxicos, todos conduzindo-nos a um Apocalipse mais apavorante para a mente secular que os Quatro Novíssimos.

Conclusão

Meu objetivo não é negar a validade destas preocupações, mas lamentar a moldura neo-pagã em que elas são colocadas muito frequentemente. O home moderno é tão caótico que, quando finalmente redescobre um amor pela natureza, ele o faz da maneira menos natural. Tanto a antiga antipatia à natureza como sua atual idolatria têm uma grave necessidade de correção, uma correção que a Igreja está bem preparada para providenciar. Como Chesterton gracejava, os cristãos podem amar verdadeiramente a natureza porque eles não a adorarão. A Igreja proclama a bondade da natureza porque ela foi criada por um Deus bom e amoroso e porque ele reflete sacramentalmente a grandeza da bondade e do amor de Deus.

A Igreja faz isto liturgicamente com sua observância das “Quatro Estações”, as Têmporas. Celebrar as Têmporas não oferece, obviamente, soluções prontas para as complicadas dificuldades ecológicas do mundo, mas é um bom curso de atualização sobre primeiros princípios básicos. As Têmporas oferecem uma alternativa inteligente ao ecologismo panteísta, e fazem isto sem ser artificiais ou complacentes, como um novo “Dia da Terra” católico ou algo parecido indubitavelmente seriam.

É uma lástima que a Igreja inconscientemente permitiu que o brilho das Têmporas morresse no exato momento da história em que seu testemunho era mais necessário, mas é uma grande ajuda que a Summorum Pontificum tenha novamente tornado sua celebração universalmente acessível. Cabe à nova geração assumir sua prática com uma revigorada consideração daquilo que elas significam.

Michael P. Foley é professor adjunto de patrística na Universidade de Baylor. É autor de Wedding Rites: A Complete Guide to Traditional Music, Vows, Ceremonies, Blessings, and Interfaith Services (Eerdmans) e Why Do Catholics Eat Fish on Friday? The Catholic Origin to Just About Everything (Palgrave Macmillan).

Fonte: Rorate Caeli

Tradução: OBLATVS

Milingo é demitido do estado clerical

Por muitos anos, a Igreja segue com grande sofrimento as dificuldades causadas pela conduta lamentável do Arcebispo Emérito de Lusaka, Emmanuel Milingo. Muitas foram as tentativas para trazer o Sr. Emmanuel Milingo de volta à comunhão com a Igreja Católica, inclusive a procura de meios adequados que lhe possibilitassem o exercício do ministério episcopal. O Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI envolveram-se diretamente nestes esforços e ambos os Papas seguiram pessoalmente o caso do Sr. Milingo em espírito de paterna solicitude.

Numa triste série de eventos, já em 2001 ele se achou numa situação de irregularidade como resultado de sua tentativa de contrair matrimônio com a Sra. Maria Sung, e incorreu na pena medicinal de suspensão (cf. Cânones 1044 § 1, n. 3; 1394 § 1 do Código de Direito Canônico). Desde então, ele encabeça certos grupos promotores da abolição do celibato sacerdotal e segue dando inúmeras entrevistas nos meios de comunicação em aberta desobediência às reiteradas intervenções da Santa Sé, causando grave desgosto e escândalo entre os fiéis. Em particular, em 24 de setembro de 2006 em Washington, o Sr. Milingo ordenou quatro bispos sem mandato pontifício. Agindo assim, ele incorreu na pena de excomunhão latae sententiae (Cânon 1382), declarada pela Santa Sé em 26 de abril de 2006 e que permanece em vigor. Infelizmente, o Sr. Milingo não deu sinais do desejado arrependimento em vista do retorno à comunhão plena com o Sumo Pontífice e os demais membros do colégio episcopal. Pelo contrário, ele persistiu no exercício ilegítimo dos atos específicos do ofício episcopal, cometendo novos delitos contra a unidade da Santa Igreja. Especialmente, nos meses recentes o Sr. Milingo procedeu a algumas outras ordenações episcopais.

Estes graves delitos, recentemente cometidos, devem ser considerados uma prova da persistente contumácia do Sr. Emmanuel Milingo e levaram a Santa Sé a impor-lhe a ulterior pena de demissão do estado clerical.

Segundo o Cânon 292 do Código de Direito Canônico, a pena de demissão do estado clerical, agora acrescentada à grave pena de excomunhão, tem os seguintes efeitos: perda dos direitos e deveres conexos ao estado clerical, exceto a obrigação de celibato; proibição do exercício do ministério, salvo o disposto no Cânon 976 do Código de Direito Canônico naqueles casos envolvendo perigo de morte; perda de todos os ofícios e funções e de todo poder delegado, assim como a proibição de usar o hábito clerical. Consequentemente, a participação dos fiéis em celebrações futuras organizadas pelo Sr. Emmanuel Milingo deve ser considerada ilegítima.

Deve-se destacar que a demissão do estado clerical de um Bispo é um fato muito extraordinário, a qual a Santa Sé se viu obrigada a impor em razão da gravidade das consequências para a comunhão eclesial que resultam das repetidas consagrações episcopais sem mandato pontifício; a Igreja, todavia, conserva a esperança de seu arrependimento.

No que concerne às pessoas recentemente ordenadas pelo Sr. Milingo, é bastante conhecida a disciplina da Igreja relativa à pena da excomunhão latae sententiae para aqueles que recebem a consagração episcopal sem mandato pontifício (Cânon 1382 CIC). Embora expressando esperança na conversão dos envolvidos, a Igreja reafirma o que foi declarado em 26 de setembro de 2006, ou seja, que ela não reconhece tais ordenações, nem pretende reconhecê-las no futuro e todas as ordenações delas derivadas. Portanto, o estado canônico dos supostos bispos permanece aquele em que se encontravam antes da ordenação conferida pelo Sr. Milingo.

Nesta hora em que a Igreja experimenta profunda dor pelos graves atos perpetrados pelo Sr. Milingo, ela confia ao poder da oração o arrependimento dos culpados e de todos aqueles que – sejam sacerdotes ou fiéis – de alguma forma colaboraram com ele em seus atos contrários à unidade da Igreja de Cristo.

Fonte: Santa Sé

Tradução: OBLATVS