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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Um novo livro sobre Dom Marcel Lefebvre. As relações entre Fraternidade São Pio X e Franciscanos da Imaculada.

Relatamos a gravação em áudio de uma conferência de apresentação do livro “Monsignor Lefebvre. Nel nome della verità” [Dom Lefebvre. Em nome da verdade], edições Sugarco, realizada pela autora Cristina Siccardi, em San Sicario (Turim), em 15 de agosto último. A importância deste documento está no fato que dele emerge, de forma claríssima e concisa, a posição atual da Fraternidade São Pio X e as suas perspectivas de desenvolvimento e ações futuras, bem como sua estratégia a médio prazo.

Dom Marcel Lefebvre

Dom Marcel Lefebvre

Tudo isso não só não desmente, mas demonstra, com autoridade, o apoio dos próprios altos expoentes atuais da Fraternidade; apoio tornado mais evidente pelo fato de que esta gravação foi publicada no site italiano dos filhos de Monsenhor Lefebvre (http://www.sanpiox.it/ ). Muito comovente e praticamente inédito, pois, é o modo como trata a relação entre o bispo francês e Paulo VI.

Entre outras coisas, ouvindo atentamente as palavras de encerramento da conferência, proferida pelo Pe. Emmanuel Du Chalard, tomamos conhecimento de que está previsto, para os próximos meses, um encontro entre o Padre Mannelli, fundador e superior dos Franciscanos da Imaculada, e Dom Bernard Fellay.

Na verdade, os contatos entre estas duas ordens religiosas remontam já há tempos e traçam algumas convergências significativas que, à primeira vista, podem surpreender.

Dentro da FSSPX, de fato, em geral, ouve-se opiniões positivas sobre os Franciscanos da Imaculada, ao contrário do que acontece com as congregações chamadas “Ecclesia Dei”. Freqüentemente são louvadas a profunda espiritualidade e vida de penitência desses religiosos.

Não nos esqueçamos, além disso, que foi a própria editora dos Franciscanos da Imaculada que publicou o livro “Concilio Vaticano II, um discorso da fare”, de Monsenhor Brunero Gherardini, texto comentado com tom quase entusiasta na última edição de “La Tradizione Cattolica”, revista oficial da FSSPX na Itália.

Acrescentamos a este respeito que vozes críticas (de “direita”) dentro da Fraternidade São Pio X contra o texto de Gherardini foram refreadas pelo próprio Dom Fellay numa das últimas edições de Cor Unum, a publicação interna da Fraternidade.

Com efeito, enquanto as outras ordens “Ecclesia Dei” nasceram, algumas mais outras menos, de fraturas internas da FSSPX, e fraturas, infelizmente, sempre deixam feridas difíceis de cicatrizar, o mesmo não se pode dizer com relação aos Franciscanos da Imaculada.

O tempo dirá. Certamente, para o bem da Tradição, será necessário procurar algum tipo de harmonização dentro do mundo católico tradicionalista. Não é justo que as divisões e rivalidades internas, por vezes, pesem mais do que os próprios ataques dos modernistas. Mas ao mesmo tempo, uma certa concorrência ‘intrabrand’ é um sinal de vitalidade e riqueza e não se pode esquecer, a esse respeito, as ácidas disputas que – testemunha Dante Alighieri – opunham franciscanos e dominicanos.

Acrescente-se a isso que a autora do texto sobre Lefebvre, Cristina Siccardi, é próxima à Alleanza Cattolica (outra entidade cujas relações com a Fraternidade São Pio X tem sido historicamente difíceis), não podemos senão nos alegrar com estes sinais de ‘tradi-ecumenismo’ .

É possível ouvir a gravação nos site Sanpiox.it ou Maranatha

Esta, por sua vez, é a apresentação da edição de Siccardi, que recomendamos e à qual nos referimos neste post:

Dom Marcel Lefebvre (1905-1991), um nome que quase sempre faz estremecer, impronunciável, exceto em alguns ambientes restritos, onde é muito amado e reverenciado. Boa parte da opinião pública, católica e não-católica, o pintou como um “herege”, como um “cismático”, alguém que desejava criar uma igreja inteiramente sua…

Quantos erros, quantas fábulas se construíram em torno de pessoas que pensam, que raciocinam, que alegam verdades incômodas e por isso tornam-se elas mesmas incômodas. Incômodas como Lefebvre.

Conhecido na maior parte das vezes como o Bispo rebelde, Dom Lefebvre foi até agora colocado sob um faixo de luz difamatório, não pela sua conduta de vida, exemplar e altamente virtuosa, por todos verificável, mas pela sua forte tomada de posição contra um Concílio pastoral, o Vaticano II, cujos ditames via e denunciava as conseqüências descristianizantes e relativistas que dele surgiam.

Hoje, após quase vinte anos após sua morte e quarenta e cinco do encerramento do próprio Concílio, podemos nos aproximar historicamente dele com maior serenidade e sem ressentimentos, considerando este homem, melhor, este sacerdote, não como o inimigo de alguém, mas como um soldado corajoso e perspicaz de Cristo, paladino da integridade da Fé e da Santa Igreja Romana, do Primado Petrino e da Eucaristia.

Dom Lefebvre, graças também aos filhos que deixou, os padres da Fraternidade São Pio X, ainda está aí para indicar que a tradição, na doutrina Católica, na celebração do Santo Sacrifício da Missa de Sempre, na santidade sacerdotal, são as respostas aos problemas de um mundo que se perdeu em seu orgulho e em sua vaidade, destronando Cristo Rei.

Fonte: Messa in Latino

Visto em: Fratres in Unum


quinta-feira, 15 de julho de 2010

O juízo de Monsenhor Brunero Gherardini sobre o debate teológico entre Tradição e o Concílio Vaticano II.

Mons. Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e  postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a  aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da  consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.



DICI
– Na edição de maio de 2010 de Courrier de Rome (n°333), Professor Paolo Pasqualucci oferece um comentário esclarecedor sobre o estudo de Monsenhor Brunero Gherardini publicado na revista teológica Divinitas sob o título Quod et tradidi vobis – La tradizione vita e giovinezza della Chiesa (Quod et tradidi vobis. A tradição, vida e juventude da Igreja), um estudo que também foi republicado em um volume por Casa Mariana Editrice.

Monsenhor Gherardini, autor de Vaticano II: Un discorso da fare, publicado em francês no início desse ano, apresenta em Quod et tradidi vobis uma análise muito pertinente do debate teológico entre a Tradição e o Concílio Vaticano II. Aqui está o amplo extrato que pode ser encontrado em Courrier de Rome, oferecendo uma lista de 9 dificuldades; a esta lista nós acrescentamos os três parágrafos que seguem, onde Monsenhor Gherardini não hesita em transmitir um julgamento pessoalmente muito explícito.

“Em meu esforço em estabelecer uma síntese de posições defendidas por Dom Lefebvre em favor da Tradição, e sem pretender tratar exaustivamente do assunto, parece-me que o conflito se estabelece da seguinte maneira:

  1. Uma formação sacerdotal que encontrou seus princípios na Tradição eclesiástica e nos valores sobrenaturais da Revelação divina, frente a uma formação sacerdotal aberta ao horizonte flutuante de uma cultura em perpétuo estado de devir.

  2. Uma liturgia que certamente tem um ponto forte na Missa dita tradicional, frente a uma liturgia antropocêntrica e sociológica [a do Novus Ordo da missa], na qual o coletivo prevalece sobre o valor do individual, a oração ignora o aspecto latrêutico, a assembléia torna-se o ator principal e Deus dá lugar ao homem.
  3. Uma liberdade que faz sua “libertação” depender do Decálogo, dos mandamentos da Igreja, das obrigações do dever de estado e do dever de conhecer, amar e servir a Deus, frente a uma liberdade que coloca todas as formas de culto em pé de igualdade, silencia a respeito da lei de Deus, desobriga os indivíduos e a sociedade sobre domínios éticos e religiosos e deixa a solução de todos os problemas exclusivamente à consciência.
  4. Uma teologia que reúne seu conteúodo de fontes específicas (Revelação, Magistério, Patrística, Liturgia), frente a uma teologia que abre bem os seus braços, dia após dia, às emergências culturais do momento, mesmo àquelas que claramente contradizem as fontes recém mencionadas.
  5. Uma soteriologia (nota do editor: estudo da obra da salvação) estreitamente unida à pessoa e à obra redentora do Verbo Encarnado, à ação do Espírito Santo, intimamente ligada à aplicação dos méritos do Redentor, à intervenção sacramental da Igreja e à cooperação dos fiéis batizados, frente a uma soteriologia que considera a unidade do gênero humano como consequência da encarnação do Verbo, em quem (cf GS 22) cada homem encontra sua própria identificação.
  6. Uma eclesiologia que identifica a Igreja com o Corpo Místico de Cristo e reconhece em Sua presença sacramental o segredo vital do ser e do agir eclesial, frente a uma eclesiologia que considera a Igreja Católica como um componente, entre outros, da Igreja de Cristo, e que, nessa fantasmagórica Igreja de Cristo, adormece o espírito missionário, dialoga mas não evangeliza, e acima de tudo, renuncia o proselitismo como se fosse um pecado mortal.
  7. Um Sacrifício expiatório da Missa, que celebra os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, representando sacramentalmente a redenção satisfatória, frente a uma Missa na qual o padre é apenas um presidente e todos tomam uma parte “ativa” no sacramento, graças ao fato de que a fé não é encontrada em Deus que Se revela, mas numa resposta existencial feita a Deus que nos interpela.
  8. Um Magistério consciente de ter o múnus de guardar o sagrado depósito da Revelação divina com o dever de interpretá-lo e transmiti-lo às gerações futuras, frente a um Magistério Papal que, longe de se sentir a voz da Igreja docente, sujeita a própria Igreja ao colégio dos bispos, dotado dos mesmos direitos e deveres do Romano Pontífice.
  9. Uma religiosidade que compreende a vocação comum ao serviço de Deus e, por amor a Ele, o serviço aos irmãos na humanidade, frente a uma religiosidade que inverte essa ordem natural, faz do homem seu centro e, se não em teoria, ao menos na prática, coloca-o em lugar de Deus.

“Do que acaba de ser dito, pode-se facilmente deduzir como a Fraternidade São Pio X compreende a Tradição. Realmente, a Tradição é exatamente o que a Fraternidade não nega ou se opõe. Diretamente ou nas entrelinhas, a Fraternidade rejeita as inogações dos documentos do Concílio e suas aplicações pós-conciliares, e permanece em oposição ao uso selvagem que tão casualmente foi feito deles.

“É verdade que nos escritos da Fraternidade São Pio X o conceito de Tradição não freqüentemente é explicado, e nós não o encontramos desenvolvido sistematicamente. Mas o que se compreende, assim como o que se conjetura, nunca permanece em sombras. Como fundamento de tudo está “a fé de sempre” para cuja salvaguarda nasceu a Fraternidade”. “Salvaguarda” indica uma oposição a algo presente ou possível, em favor de seu contrário ou de sua substituição. A “fé de sempre” é o valor que Monsenhor Lefebvre quis salvaguardar, um valor que está sendo substituído por todas as atenuações, reinterpretações, reduções e negações do período conciliar e pós-conciliar. A “fé de sempre” é o eco alto e claro do ensinamento agostiniano resumido pelas palavras de São Vicente de Lérins: “Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est”[1]. A própria ereção da Fraternidade, com seu objetivo primeiro que é a formação sacerdotal, obedece a este grande ideal e ao comprometimento de salvaguardá-lo. Salvaguardar a fé e combater o erro.

“Não entrarei em detalhes sobre as relações e dificuldades entre a Santa Sé a Fraternidade São Pio X. Atenho-me ao tema comum da Tradição e observo que “salvaguardar a fé e combater o erro” deveria ser o ideal e o comprometimento tanto da Igreja como de seus filhos. À essa luz, é difícil, para mim, compreender como a acusação de uma “incompleta e contraditória Tradição” formulada por João Paulo II em 1988 [2] poderia ter alguma base verdadeira. O que compreendo é que ela não tem nada a ver com o “espírito de Assis”. [3] (Traduzido do Italiano — DICI n°218, July 10, 2010)

Courrier de Rome – B.P. 10156 – 78001 Versailles Cedex or courrierderome@wanadoo.fr – Assinatura: 20 euros (Exterior: 24 euros)

Msgr. Brunero Gherardini, Ecumenical Council Vatican II: And Open Discussion – disponível em Courrier de Rome: 15 euros + 3 euros frete


[1] St. Vincent de Lérins, Commonitorium, c. 23.

[2] Motu Proprio Ecclesia Dei, July 2, 1988.

[3] Msgr. Gherardini, Quod et tradidi vobis – La tradizione vita e giovinezza della Chiesa, Ed. Casa Mariana Editrice, pp. 241-244.

Visto em: Fratres in Unum

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Os defensores da tradição reivindicam a Igreja infalível.

Suplicam ao Papa que condene “ex cathedra” os erros do Concílio Vaticano II. Um novo livro de Romano Amerio voltará a dar força a seu pedido. Mas Bento XVI não está de acordo.

por Sandro Magister


ROMA, 12 de julho de 2010 – Há alguns dias está nas livrarias italianas um novo volume de Romano Amerio, o terceiro da “opera omnia” deste autor, publicado pelas Edições Lindau.

Amerio, falecido em 1997 em Lugano (Suíça) aos 92 anos de idade, foi um dos maiores intelectuais cristãos do século XX.

Filólogo e filósofo de primeiro nível, Amerio tornou-se conhecido no mundo por conta de seu ensaio, publicado pela primeira vez em 1985 e traduzido para muitos idiomas, intitulado: “Iota unum. Estudo das variações da Igreja Católica no século XX”.

Mas esse mesmo ensaio, justamente pela tese que contém, fez Amerio ganhar o ostracismo da quase totalidade do mundo católico. Um ostracismo que apenas perdeu vigor há pouco tempo, também graças à reedição de “Iota unum”.

Amerio dedicou meio século à redação de “Iota unum”. E também esse terceiro volume da “opera omnia” foi escrito em um espaço de tempo muito amplo, de 1935 a 1996. Tem por título “Zibaldone” e — como a obra homônima do poeta Giacomo Leopardi — recolhe pensamentos breves, aforismos, narrações, citações de autoires clássicos, diálogos morais e comentários sobre fatos cotidianos.

Com seus mais de setecentos pensamentos, “Zibaldone” forma uma espécie de autobiografia intelectual do autor. Nela estão naturalmente presentes as questões apresentadas em “Iota unum”.

Como, por exemplo, nesta pequena página datada de 2 de maio de 1995:

“A autodemolição da Igreja, deplorada por Paulo VI no famoso discurso pronunciado em 11 de setembro de 1974 no seminário Lombardo, torna-se cada dia mais evidente. Já no Concílio, o Cardeal Heenan (primaz da Inglaterra) lamentou que os bispos tenham deixado de exercer o ofício do Magistério, mas se consolava ao ver que tal ofício havia sido conservado integralmente no Pontificado Romano. A observação era e é falsa. Hoje, o Magistério Episcopal cessou e o Papal também. Hoje, o Magistério é exercido pelos teólogos que agora marcam a todas as opiniões do povo cristão e desqualificaram o dogma da fé. Tive uma demonstração impressionante disso ao escutar ontem o teólogo da Rádio Maria. Ele negou impávido e muito tranquilamente artigos de fé. Ensinou [...] que os pagãos, a quem não é anunciado o Evangelho, se seguem os ditames da justiça natural e se decidem buscar a Deus com sinceridade, alcançam a visão beatífica. Esta doutrina dos modernos é antiguissima na Igreja, mas sempre foi condenada como um erro. Mas os teólogos antigos, enquanto sustentavam com firma o dogma da fé, experimentavam ao mesmo tempo toda a dificuldade que encontra o dogma e buscavam a forma de vencê-la com razões profundas. Pelo contrário, os teólogos modernos não advertem as dificuldades intrínsecas do dogma, mas correm diretamente à ‘lectio facilior’, jogando no sótão todos os decretos doutrinais do Magistério. E não se dão contam que negam assim o valor do batismo e toda a ordem sobrenatural, isto é, toda nossa religião. Também em outros pontos está difundida a rejeição do Magistério. O inferno, a imortalidade da alma, a ressurreição dos corpos, a imutabilidade de Deus, a historicidade de Cristo, a malignidade da sodomia, o caráter sacrado e indissolúvel do matrimônio, a lei natural e a primazia do divindo são outros tantos argumentos que o magistério dos teólogos eliminou do Magistério da Igreja. Essa arrogância dos teólogos é o fenômeno mais manifesto da autodemolição”.

* * *

Dessa sua análise fortemente crítica, que ele aplicava também ao Concílio Vaticano II, Amerio extraiu o que Enrico Maria Radaelli, seu fiel discípulo e editor da publicação das obras do mestre, chama de “grande dilema subjacente ao fundo do cristianismo atual”.

O dilema é se há continuidade ou ruptura entre o Magistério da Igreja antes e depois do Vaticano II.

No caso de uma ruptura, se esta fosse tal como para “perder a verdade”, então também a Igreja estaria perdida.

Amerio não chegou jamais a sustentar essa postura extrema. Sempre foi um filho obediente da Igreja. Não só isso. Sabia pela fé que, não obstante tudo isso, a Igreja jamais pode perder a verdade e, consequentemente, jamais pode perder-se a si mesma, pois está assistida indefectivelmente “pelas grandes promessas de Nosso Senhor: ‘As portas do inferno não prevalecerão contra ela’ (Mt 16, 18) e ‘estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos’ (Mt 28, 20)”.

Mas Amerio estava convencido — e Radaelli explica bem em seu extenso epílogo a “Zibaldone” — que esse amparo assegurado por Cristo a sua Igreja vale somente para as definições dogmáticas “ex cathedra” do Magistério, não para os ensinamentos incertos, ambíguos, opináveis e “pastorais” do Concílio Vaticano II e das décadas posteriores.

Com efeito, a juízo de Amerio e Radaelli, esta é justamente a causa da crise da Igreja conciliar e pós-conciliar, uma crise que levou o mais próximo da perdição, “impossível mas também quase alcançada”, como é o ter desejado renunciar a um magistério imperativo, com definições dogmáticas “inequívocas na linguagem, certas no conteúdo, vinculantes na forma, como se espera ser ao menos os ensinamentos de um Concílio”.

A consequência, segundo Amerio e Radaelli, é que o Concílio Vaticano II está cheio de asserções vagas, interpretáveis de modos diferentes, das quais algumas estão também em aberto contraste com o magistério anterior da Igreja.

Essa linguagem pastoral ambígua é o que havia aberto o caminho a uma Igreja hoje “percorrida por milhares de doutrinas e centenas de milhares de costumes nefastos”, inclusive na arte, música e liturgia.

O que fazer para remediar essa calamidade? A proposta que faz Radaelli vai mais além daquela feita recentemente — a partir de juízos críticos tão duros quanto — por outro estimado apaixonado pela tradição católica, o teólogo tomista Brunero Gherardini, de 85 anos de idade, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista “Divinitas”.

* * *

Monsenhor Gherardini antecipou sua proposta num livro publicado em Roma, no ano passado, com o título: “Concilio Ecumenico Vaticano II. Um discorso da fare”.

O livro conclue com uma “Súplica ao Santo Padre”, a quem se pede que submeta a um novo exame os documentos do Concílio, para esclarecer, de uma vez por todas, “se, em que sentido e até que ponto” o Vaticano II está ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja.

O livro de Gherardini tem no início dois prefácios: um, de Albert Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo e ex-secretário da Congregação vaticana para o Culto Divino, e outro, de Mario Oliveri, bispo de Savona. Este último afirma que se une “toto corde” à súplica ao Santo Padre.

Pois bem, em seu epílogo a “Zibaldone” de Romano Amerio, o professor Radaelli recolhe a proposta de Monsenhor Gherardini, mas “apenas como uma primeira instância para purificar o ambiente de muitos, muitos mal entendidos”.

Com efeito, segundo Radaelli, não é suficiente esclarecer o sentido dos documentos conciliares, se tal esclarecimento é oferecido depois à Igreja com o mesmo estilo ineficaz de ensinamento “pastoral” que se tornou costume com o Concílio, propositivo mais que impositivo.

Se o abandono do princípio de autoridade e o “discussionismo” são a enfermidade da Igreja conciliar e pós-conciliar, para sair dela — afirma Radaelli — é necessário trabalhar de forma contrária. A máxima hierarquia da Igreja deve fechar a discussão com um pronunciamento dogmático “ex cathedra”, infalível e vinculante. Deve atingir com o anátema os que não obedeçam e deve bendizer os que obedecem.

O que Radaelli espera que a cátedra suprema da Igreja decrete? Assim como Amerio, ele está convencido de que ao menos em três casos se deu “uma ruptura abismal da continuidade” entre o Vaticano II e o magistério anterior: onde a Concílio afirma que a Igreja de Cristo “subsite na” Igreja Católica, em vez de dizer que “é” a Igreja Católica; onde assevera que “os cristãos adoram o mesmo Deus adorado pelos judeus e muçulmanos”; e na Declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa.

* * *

Tanto Gherardini como Amerio-Radaelli reconhecem em Bento XVI um Papa amigo. Mas há que se descartar que ele assinta a seus pedidos.

Mais ainda, tanto no conjunto como em alguns pontos controversos, o Papa Joseph Ratzinger já fez saber que não compartilha em absoluto de suas posições.

Por exemplo, a respeito da continuidade de significado entre as fórmulas “é” e “subsiste em” já se expressou a Congregação para a Doutrina da Fé, no verão de 2007, ao afirmar que “o Concílio Ecumênico Vaticano II não quis mudar, nem de fato o fez, a doutrina anterior sobre a Igreja, mas que apenas quis desenvolvê-la, aprofundá-la e expô-la mais amplamente”.

Quanto à Declaração “Dignitatis humanae” sobre a liberdade religiosa, Bento XVI explicou pessoalmente que, se ela está separada das indicações anteriores “contingentes” do Magistério, fê-lo precisamente para “retomar novamente o patrimônio mais profundo da Igreja”.

O discurso em que Bento XVI defendeu a ortodoxia da “Dignitatis humanae” é o que dirigiu à cúria vaticana na vigília do primeiro Natal de seu pontificado, em 22 de dezembro de 2005, precisamente para sustentar que entre o Concílio Vaticano II e o magistério anterior da Igreja não há ruptura, mas “reforma na continuidade”.

O Papa Ratzinger não conveceu até agora aos lefebvristas, que se mantêm em estado de cisma justamente neste ponto crucial.

Mas não convenceu — de acordo com o que escrevem Radaelli e Gherardini — nem sequer a alguns de seus filhos “obedientíssimos em Cristo”.

Visto em: Fratres in Unum

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma súplica ao Papa Bento XVI. Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.

O pensamento (que agora ouso submeter à Vossa Santidade) está em minha mente há bastante tempo. É o de se dar um grandioso e, se possível, final, esclarecimento sobre o último Concílio, a respeito de cada um de seus aspectos e conteúdos.

Com efeito, pareceria lógico, e a mim parece urgente, que estes aspectos e conteúdos sejam estudados em si mesmos e no contexto de todos os outros, com um exame atento de todas as fontes, e do ponto de vista específico da continuidade com o Magistério precedente da Igreja, tanto solene como ordinário. Será então possível, em comparação com o Magistério tradicional da Igreja e com base num trabalho científico e crítico — quão vasto e irrepreensível possível — retirar matéria para uma avaliação clara e objetiva do Vaticano II.

Isso permitirá responder às seguintes questões (entre outras):

  • Qual é a verdadeira natureza do Vaticano II?
  • Qual é a ligação entre seu caráter pastoral (uma noção que necessitará ser determinada com autoridade) e seu possível caráter dogmático? O caráter pastoral é conciliável com o dogmático? Ele o supõe? O contradiz? O ignora?
  • É verdeiramente possível definir o Concílio Vaticano II como “dogmático”? E conseqüentemente, é possível se referir a ele como um concílio dogmático? Basear sobre ele novas asserções teológicas? Em que sentido? E dentro de quais limites?
  • O Vaticano II é um “evento” no sentido dado à palavra pelos professores de Bologna* , i.e., algo que desata as ligações com o passado e estabelece uma nova era em todos os aspectos? Ou todo o passado revive nele “eodem sensu eademque sententia”?

Monsenhor Brunero Gherardini, padre da diocese de Prato (Itália), está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor de eclesiologia e ecumenismo na Pontifícia Universidade Lateranense até 1995. É autor de uma centena de livros e várias centenas de artigos em revistas, lidando com três campos concêntricos de pesquisa: a Reforma do século XVI, Eclesiologia e Mariologia. Monsenhor Gherardini atualmente é cônego da Arquibasílica Vaticana e editor da revista internacional de teologia “Divinitas”.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Congresso Teológico da FSSPX em Paris debate obra de Monsenhor Brunero Gherardini.

O 9° Congresso Teológico do jornal “Courrier de Rome” será realizado em Paris, de 8 a 10 de janeiro de 2010.

O tema do encontro deste ano do jornal mensal anti-modernista é:

O Concílio Vaticano II: um debate a ser aberto?

Sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Padre Emmanuel du Chalard, Diretor do Congresso, apresenta a tradução francesa já pronta do livro “Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare” do Monsenhor Prof. Dr. Brunero Gherardini, decano de São Pedro em Roma.

Padre Philipp Bourrat: Os Fundamentos imutáveis da Revelação divina do Magistério da Igreja

Dr. Luisella Scrosati: Princípios e bases filosóficas da “Nova Teologia”

Prof. Dr. Paolo Pasqualucci: A influência do pensamento contemporâneo do Vaticano II – Tentativa de uma interpretação

Sábado, 9 de janeiro de 2010

Padre Jean-Michel Gleize: A Tradição Viva

Padre Patrick de la Rocque: A pessoa da Igreja. O fundamento da nova Eclesiologia

Prof. Dr. Dominique Viain: Variações em estilo e teologia do documento conciliar “Nostra aetate”

Padre Renaud de Sainte-Marie: A liberdade religiosa e o novo ensinamento social

Padre Christian Thouvenot, Secretário Geral da Fraternidade: Fé e Razão no pensamento de Joseph Ratzinger, atualmente o Pontífice reinante Bento XVI.

Padre Alain Lorans: A suspensão do Princípio da Contradição

Domingo, 10 de janeiro de 2010

10.00h – Missa Solene na Igreja de Saint Nicolas-du-Chardonnet : Monsenhor Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade de São Pio X.

Padre Emmanuel du Chalard: A situação atual na Cúria e na Igreja

Monsenhor Bernard Fellay: Síntese e Perspectivas

Local do Evento:

Palais de la Mutualité, 24 rue Saint-Victor 75005 Paris (no centro da cidade)

Horários:

Sexta-feira, de 14-17h, Sábado de 9-12 e de 14-17h, Domingo, Missa Solene, Palestras de 14-17h.

Fonte: Distrito Alemão da FSSPX

Visto em: Fratres in unum

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sobre a noção de “Tradição Viva”. Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.


Até o Vaticano II, para esclarecer este ponto, o teólogo tinha a seu dispor uma elaboração bastante precisa do conceito de Tradição, da qual ele poderia extrair um argumento para avaliar adequadamente seu julgamento.

Já fiz alusão a esta elaboração na primeira parte do presente capítulo, considerando a Tradição a partir de vários pontos de vista, e qualificando-a de acordo com suas funções em apostólica, divino-apostólica, humano-apostólica, inerente, declarativa e constitutiva.

Agora, o Vaticano II, que fez uma exceção para a Tradição Apostólica – embora sem nunca apresentá-la com o significado doravante considerado como “tradicional” desta qualificação – sistematicamente ignorou todas as outras. Por outro lado, encontramos no Concílio uma qualificação diferente: Tradição viva, que discutirei posteriormente.

Somos confrontados com uma maneira de expressar que, ao procurar simplificar a mensagem, acaba tornando-a mais complicada por conta de uma linguagem muito genérica, seu emprego anfibológico e sua falta de especificidade. E não estou falando sobre o fato de que “viva” possa abrir as portas a todos os tipos de inovações que poderiam surgir ou germinar da velha planta.

[…]

Faço uma última observação acerca da assim chamada Tradição viva da Igreja. Aparentemente, é uma expressão irrepreensível, embora seja, de fato, ambígua. É irrepreensível porque a Igreja é uma realidade viva e a Tradição é sua própria vida. É ambígua porque permite a introdução de qualquer novidade na Igreja, mesmo as mais contra-indicadas, como expressão de sua vida.

Dei Verbum fala do Evangelho vivo¸ do Magistério vivo e da Tradição viva. Já esta enorme gama de usos não advoga em favor da univocidade do conceito.

No número 7, por exemplo, é dito que “para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores”.

No número 8, lemos que: “ o Espírito Santo – por quem ressoa a voz viva do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo, introduz os crentes na verdade plena”.

Em seguida, encontramos no número 10 a seguinte afirmação: “o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo (destaques meus) da Igreja”.

Pouco depois, no número 12, é recomendado como um dever que “não menos atenção se deve dar, na investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura”, “tendo em conta a Tradição viva (destaques meus) de toda a Igreja”.

De todas estas afirmações nós vagamente percebemos uma certa analogia no uso do adjetivo “vivo”, mas seguramente não o seu verdadeiro significado, nem a razão de seu uso.

O que garante a vitalidade do Evangelho – sabemos bem – é o Evangelho: através dele ressoa a Palavra do Deus vivo, que é a própria Pessoa de Deus falando, e, portanto, a expressão de Sua própria vida. Que há também um Magistério é uma verdade de nossa fé, no sentido de que qualquer um na encargo do Magistério continua, graças à sucessão apostólica, a transmissão ininterrupta dos ensinamentos de Cristo e de Seus Apóstolos.

De fato, esta sucessão faz o ensinamento de Cristo e de Seus Apóstolos alcançar a Igreja em todo período de tempo, porque é um elemento vivo e vital da própria existência da Igreja. Por outro lado, o conceito de “Tradição viva” é mais nebuloso.

O texto conciliar não obriga a se ater apenas a ele, mas também à analogia da fé, i.e., o elo que liga numa recíproca interdependência cada uma das verdades reveladas e as torna uma unidade inseparável.

O objetivo desta dupla obrigação tende a transpassar os limites da palavra escrita, esta palavra vinda da Palavra viva, que constitui o início da Tradição eclesiástica.

Mas por que se diz viva? O Concílio não o diz, ou ao menos não com a clareza necessária. Provavelmente por causa da unidade – ao menos substancial (portanto, a continuidade) – entre o primeiro estágio da Tradição que é apostólico, os estágios seguintes, a começar com aquele que foi imediatamente pós-apostólico, descendo aos outros, relacionados com os grandes períodos históricos da Igreja, e finalmente até o presente estágio.

É provavelmente isso o que significa. Mas o silêncio sobre esta continuidade, infelizmente, também implica na ausência de qualquer certeza sobre a questão. “Vivo” podia certamente indicar uma ligação entre os vários estágios e evitar mais ou menos rupturas sérias, assim garantindo a continuidade viva e vital da Tradição. Mas o texto permanece calado sobre o assunto. Meramente afirma que a Tradição é viva.

Agora, não é suficiente declará-la viva para que ela realmente seja. A comunicação vital entre suas várias fases não deve apenas ser proclamada, deve primeiramente e antes de tudo ser provada, e de tal maneira que a prova coincida com a continuidade – ao mesmo substancial – de seus conteúdos com os das fases precedentes.

A Tradição é viva não quando se torna integrada a alguma novidade, mas quando descobrimos nela, ou deduzimos dela, algum novo aspecto que anteriormente escapava da atenção; ou quando alguma nova compreensão de seus conteúdos originais enriquece a vida presente da Igreja.


Esta vida não progride por solavancos ou saltos desconectados uns dos outros, mas pela linha principal do “quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est,” que o Vaticano I, seguindo os passos de Trento, expressou ao referir-se ao significado “quem tenuit ac tenet sancta Mater Ecclesia” (DS 1507 and 3007).

O “sempre”, o “em todo lugar” e o “por todos” não estão relacionados com uma identidade de palavras e portanto da afirmação como um todo, mas verdadeiramente com o significado que a Igreja, por meio de seu Magistério solene e ordinário, sempre sustentou, e ainda sustenta agora em suas declarações teológicas e dogmáticas.

O princípio da “Tradição viva” não foi objeto de qualquer discussão. Todavia, é suscetível de abrir o caminho a uma falsificação do depósito sagrado das verdades contidas na Tradição.

Numa atmosfera como esta que prevaleceu durante e depois do Vaticano II, quando apenas o que era novo parecia ser verdade, e quando esta novidade se apresentava sob os traços da cultura imanentista e fundamentalmente ateísta de nosso tempo, a doutrina de sempre não constituía mais que um vasto cemitério.

A Tradição permaneceu mortalmente ferida e agoniza ainda hoje (ao menos que já esteja morta) por causa das posições tomadas que eram radicalmente irreconciliáveis com seu passado. Então, não é suficiente defini-la como viva, se já não há mais nada de vivo nela.

A verdade é (e isso é grave) que falamos de Tradição viva apenas para endossar toda inovação apresentada como desenvolvimento natural das verdades oficialmente transmitidas e recebidas, mesmo que a inovação não tenha nada em comum com tais verdades e esteja bem longe de ser um novo germe do velho tronco.

Em verdade, a Tradição é viva apenas na medida em que é e continua a ser a mesma Tradição apostólica, que se reapresenta – inalterada – na e através da Tradição eclesiástica.

A primeira, antes, carrega consigo um significado passivo: é o que foi transmitido, igual a si mesma, inclusive em sua transmissão, porque o depósito deve ser mantido inalterado.

A última, pelo contrário, mostra um significado mais ativo enquanto órgão oficial que assegura a transmissão fiel do depósito e encontra, em seu fim, a justificativa para o adjetivo “vivo”.

Portanto, um dado que não tivesse suas raízes nos conteúdos transmitidos não seria um dado da Tradição viva, mesmo no caso – em si mesmo e per se­ – absurdo, em que este dado fosse oficialmente proposto.

Um exemplo grosseiro: nunca será possível que a teologia transcedental de Rahner seja declarada um elemento da Tradição viva, porque ela é, na realidade, sua tumba.

Algumas coisas no Concílio, e muitas coisas na era pós-concílio contribuíram para cavar esta sepultura.

A legitimidade do adjetivo “vivo” com respeito ao progresso no conhecimento que podemos ter da Tradição é inquestionável, como já dissemos. Neste caso, pertence ao campo do “progresso dogmático”.

Na verdade, o dever do Magistério da Igreja não é apenas reapresentar a Tradição Apostólica, mas também estudá-la a fundo, analisá-la, explicá-la.

O caráter vivo da Tradição é, portanto, manifestado não por avaliar o conteúdo apostólico em comparação com o nível e com os conteúdos da cultura desse ou daquele período histórico, mas pelo fato de que ele inicia uma transição de uma implícita para uma explícita afirmação dos conteúdos.

Em todo caso, a atual chamado para a Tradição viva pode ser resumido como um verdadeiro perigo para a fé de cada cristão e de cada comunidade cristã como um todo.

Monsenhor Brunero Gherardini – Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.
Excertos do capítulo 5 – “Tradição no Concílio Vaticano II”.

Fonte: DICI

Visto em: Fratres in Unum